Você sabe o significado da música “O pequeno burguês”?

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Para muitos, “O pequeno burguês” é a maior obra-prima de Martinho da Vila, mas tratando-se da genialidade do compositor em questão, é difícil também não citar “Disritmia”, “Casa de bamba”, “Sonho de um sonho” e tantas outras verdadeiras artes que passaram pelo crivo e criação de um dos maiores gênios do samba.

Ainda que lançada em seu primeiro disco (Martinho da Vila – 1969), “O pequeno burguês” não foi o primeiro sucesso do até então apenas promissor sambista e compositor. Dois anos antes, ele concorreu pela primeira vez no III Festival da Record com a canção “Menina Moça”. Um ano depois, estourou nas rádios com a dançante “Casa de bamba”, cantada pelo amigo Jair Rodrigues no Festival do ano seguinte.

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O que torna “O pequeno burguês” tão especial, entretanto, não é sucesso posterior a gravação, mas a história cantada em uma letra simples e que retrata a vida de muitos brasileiros ainda hoje.

Antes de se tornar um sambista de sucesso, Martinho da Vila serviu o Exército como sargento burocrata. Na época, todos os homens que iniciavam a vida de adulto e não tinham condições de sustentar uma família, acabavam servindo a nação, ainda que o salário recebido não fosse dos melhores. O “pequeno burguês” personagem da canção não é Martinho, mas um de seus companheiros de Infantaria, o Sargento Xavier.

Na época, um fardado que conseguisse conciliar o trabalho duro do Exército com uma graduação era raro, mas Sargento Xavier conseguiu o feito e se formou em Direito. Os companheiros de Infantaria, orgulhosos do companheiro, combinaram de irem todos juntos fardados na formatura de Xavier, afinal, a maioria não tinha dinheiro para comprar um terno. No dia da formatura, entretanto, ninguém foi convidado.

Um dia após o baile, todos os companheiros decidiram dar um “gelo” no Sargento Xavier, que ficou conhecido como o “pequeno burguês”, por não convidar os amigos pobres para sua formatura. Sem entender o que tinha acontecido, um dia Xavier se encontrou com Martinho e perguntou o motivo de todos o excluírem das conversas confraternizações. Sem chances de fugir, Martinho o contou que todos estavam ofendidos por não serem chamados para o baile de formatura.

Ao saber da história, Xavier, bastante surpreso, explicou que ele não tinha convidado a todos por um simples motivo: ele também não tinha ido, afinal, a faculdade era particular e ele não tinha como bancar o aluguel de um terno, preço de Buffet e tantas outras coisas. Ele ainda informou que o “canudo” com o diploma só foi retirado dias depois, na secretaria da Faculdade.

Gênio, Martinho emprestou a história do amigo e compôs “O pequeno burguês”. O causo de um Sargento que consegue se formar, mas não vai à formatura.

“Mas burgueses são vocês, eu não passo de um pobre coitado”

O Pequeno Burguês

Martinho da Vila

Felicidade!
Passei no vestibular
Mas a faculdade
É particular
Particular!
Ela é particular
Particular!
Ela é particular…

Livros tão caros
Tanta taxa prá pagar
Meu dinheiro muito raro
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro
Alguém teve que emprestar…

Morei no subúrbio
Andei de trem atrasado
Do trabalho ia prá aula
Sem jantar e bem cansado
Mas lá em casa
À meia-noite
Tinha sempre a me esperar
Um punhado de problemas
E criança prá criar…

Para criar!
Só criança prá criar
Para criar!
Só criança prá criar…

Mas felizmente
Eu consegui me formar
Mas da minha formatura
Não cheguei participar
Faltou dinheiro prá beca
E também pro meu anel
Nem o diretor careca
Entregou o meu papel…

O meu papel!
Meu canudo de papel
O meu papel!
Meu canudo de papel…

E depois de tantos anos
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês
Muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo
De um pobre coitado
E quem quiser ser como eu
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado!
Vai penar um bom bocado
Um bom bocado!
Vai penar um bom bocado
Um bom bocado!
Vai penar um bom bocado…