Para falar da música Hallelujah… precisa-se estar ciente de que estamos lidando com uma das obras musicais mais emblemáticas do século XX. Trata-se de uma canção instigante, profunda e envolvente. Neste post, nós desvendaremos o significado da letra, estabeleceremos comparações entre versões e conheceremos algumas curiosidades sobre essa música tão importante para a cultura pop.

Abra sua mente, respire fundo e boa leitura!

O que é Hallelujah?

Leonard Cohen Mountbaldy Monastry bb30 1995 billboard 1240 300x300 - Você sabe o significado da música Hallelujah?

Antes de mergulharmos na questão da música, precisamos entender que Hallelujah é uma palavra de origem hebraica cuja significado quer dizer “louvai a Deus”. No que diz respeito à etimologia, podemos fatiar a palavra em duas partes: “hallelu” [“louvai”] e “jah”, uma forma abreviada de “Yahweh” – um dos nomes de deus.

Nas tradições cristãs usa-se a forma latina da palavra, Aleluia, em diversos momentos de louvor a Deus. No judaísmo, segundo o site Cultura Genial, Hallelujah é um termo usado para começar ou para terminar os salmos.

Dito isso, chegou a hora de destrincharmos os mistérios por trás da magnífica canção Hallelujah.

Leonard Cohen, o sacerdote de fé abalada

A gravação original de Hallelujah é a primeira faixa do lado B do disco “Various Positions”, de 1984. O álbum aparece como sétimo trabalho de estúdio da discografia de Leonard Cohen.

leonard cohen - Você sabe o significado da música Hallelujah?

Trata-se de uma música sobre fé e espiritualidade, com muitos questionamentos acerca da religiosidade. Narrada em primeira pessoa, a canção é dirigida a um destinatário [Deus] que é questionado o tempo todo. O narrador demonstra ser um sacerdote, mas sua fé parece abalada.

Ao longo de quatro estrofes, a letra da música é carregada de referências bíblicas. Ao longo dos versos, Cohen lida com trechos dos ”Salmos de David”, com fragmentos do livro de “Juízes” e cita um dos ”10 mandamentos” que, segundo as tradições religiosas, Deus entregou a Moisés.

Dê o play e confira a versão original da música:

Agora que ouviu a música, confira uma tradução livre e uma interpretação dos versos de Hallelujah.

Primeira estrofe – Oh, Rei David

Eu ouvi dizer que havia um acorde secreto
Que Davi tocava e agradava ao Senhor
Mas você não liga muito para música, não é?
É assim: a quarta, a quinta
A menor cai, a maior ascende
O rei perplexo compondo Hallelujah

Temos no primeiro verso uma clara referência aos “Salmos de David” e também à própria música. Conforme dito linhas acima,  Hallelujah é uma forma de começar ou terminar os salmos de David. A “quarta” e a “quinta”, a “menor” e a “maior”, são as notas da escala musical que constroem a melodia da música, incluindo a parte do refrão.

Segunda estrofe – Traições

Sua fé era forte, mas você precisava de provas
Você a viu se banhando no terraço
A beleza dela e o luar arruinaram você
Ela te amarrou à cadeira da cozinha
E ela destruiu seu trono e cortou seu cabelo
E dos seus lábios ela tirou o Hallelujah

A estrofe começa citando o episódio bíblico em que o Rei David, ao ver uma mulher tomando banho, se apaixona por sua beleza e comete adultério com ela, o que desagrada os olhos Senhor.

Na sequência, há uma referência ao caso de traição que envole Sansão e Dalila. Sansão era um juiz de Israel agraciado com uma superforça (mais alguém aí se lembrou do Hércules e do Superman?) que foi cedida a ele pelo Espírito Santo para proteger o povo dos ataques dos filisteus. Ele se casa com Dalila, uma filisteia dona de beleza física incomum. Em um dado momento da história, ela corta o cabelo de Sansão, que era a origem da sua força, e entrega o marido aos seus inimigos.

No último verso, o uso do termo Hallelujah nos faz entender que Dalila tinha Sansão na palma da mão. Fascinado pelos encantos da esposa, ele simplesmente louva a Deus pela traição.

No fim das contas, temos em comum homens importantes da Bíblia que são traídos por seus próprios desejos.

Terceira estrofe – Cohen, o questionador

Você disse que eu usei o nome em vão
Mas eu nem mesmo sei o nome
Mas se eu disse, bem, o que isso significa para você?
Existe um raio de luz em cada palavra
E não importa qual dela você ouviu
A Hallelujah sagrada ou a partida

A terceira estrofe faz uma a referência ao terceiro mandamento: “Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão”.

Segundo a tradição judaica, não é permitido nem mesmo falar o nome de Deus. Desta forma, as menções ao criador se dão por meio de outros termos. Porém, de acordo com algumas correntes de estudos, o nome de Deus não era mencionado porque era simplesmente impronunciável.

Nos versos acima, Cohen questiona qual é o real o significado do nome de Deus. Ele afirma que toda palavra possui “um raio de luz” e assim justifica o uso de qualquer palavra, ainda que ela seja terminantemente proibida.

Quarta estrofe – arrependimento e reflexões

Eu fiz meu melhor, mas não foi o suficiente
Eu não pude sentir, então tentei tocar
Eu havia dito a verdade, eu não vim aqui para te enganar
E mesmo que tudo tenha dado errado
Eu vou me prostrar diante da música do Senhor
Sem nada na minha língua além de Hallelujah

Buscando sua redenção, Cohen guarda para o último verso a confissão de suas falhas. Ele reconhece ser um homem insensível e assim coloca a própria fé em xeque mate. Posteriormente, ele se redime com a revelação de sua honestidade e encerra a conversa se prostrando diante do louvor a Deus.

“‘Hallelujah’definitiva” de Jef Buckley

Ainda vivo, em 1991, Leonard Cohen foi homenageado com um tributo em forma de disco. Batizada “I’m Your Fan”, a obra reúne estrelas da música reverenciando a obra de Cohen. Ficou nas mãos e talentos do músico britânico John Cale a responsabilidade de gravar Hallelujah. Em sua versão, Cale optou por usar apenas vocais, piano, e meio que uma compilação dos versos que Cohen tinha apenas tocado ao vivo.

A versão de Cale reverberou e chegou aos ouvidos do músico americano Jeff Buckley. Inspirado no cover de seu ídolo britânico, Buckley gravou uma das mais conhecidas versões de Hallelujah em seu álbum de estreia — e seu único realmente completo — “Grace”, lançado em 1994. Para muitos entendidos do riscado, a “versão Buckley” é a versão definitiva da canção.

Como você conferiu linhas acima, a versão de Leonard Cohen tem quatro estrofes. Por sua vez, a de Jeff Buckley possui uma estrofe a menos. Juntas, as duas versões são compostas por sete estrofe diferentes.

Dê o play e confira a “Hallelujah definitiva”:

Quando comparadas, as canções são consideravelmente distintas. Os versos adicionais propostos por Buckley se distanciam um pouco dos originais de Cohen. Por mais que ainda apresente a temática da espiritualidade, a canção assume um tom confessional e é adaptada para as questões de relacionamento amoroso.

A seguir, você confere uma tradução livre e uma interpretação dos versos que Buckley trouxe para a Hallelujah dele.

Primeira estrofe – O amor sombrio

Mas querida, eu já estive aqui antes
Já vi esse quarto e já andei neste chão
Você sabe, eu costumava morar sozinho antes de você
E eu vejo a sua bandeira no arco de mármore
E o amor não é uma marcha da vitória
É uma Hallelujah fria e partida

A questão de relacionamento amoroso está mais em voga do que a espiritualidade. Observe, inclusive, que destinatário é citado como “baby”, um adjetivo carinhoso. O autor começa contando sobre como ele conhecia aquele determinado lugar antes mesmo de conhecer o destinatário. A quadra também apresenta versos que retratam o amor de forma sombria e quebrada.

Segunda estrofe – Lembrança dos bons tempos

Então existiu um tempo em que você me deixava saber
O que realmente está acontecendo por dentro
Mas agora você nunca me mostra isso, não é?
Mas lembre-se quando eu me mudei para você
E o pomba sagrada estava se mudando também
E toda a respiração que esboçava-mos era uma Hallelujah

 

Nota-se um resgate da memória de quando o relacionamento estava nos trilhos e o casal vivia em harmonia. O canto faz uma referência à pomba sagrada que pode ser vista como o Espírito Santo. Naqueles bons tempos, o entendimento regia o relacionamento e cada respiração do casal significava uma Hallelujah.

Terceira estrofe – Nietzsche aplaude

Talvez exista um Deus acima
Mas tudo o que eu aprendi sobre o amor
Foi em como atirar em alguém que destruiu você
E não é um choro que você escuta a noite
Não é alguém que vê a luz
É uma Hallelujah fria e partida

Observa-se aqui o momento mais niilista da letra. De forma literal, o último verso é um questionamento da fé. A presença do Deus cristão é questionada e o amor é apresentado como um gesto de violência e não de paz. A última Hallelujah é entoada de uma forma triste, por alguém que parece desconhecer a luz da espiritualidade.

Segundo Leonard Cohen, a letra demorou um ano para ficar pronta e surgiu no meio de um processo difícil e frustrante. Para chegar no resultado final, o autor afirmou ter redigido pelo menos 80 versos!

A canção já ganhou versões de artistas dos mais variados segmentos da música. Além dos registros citados neste post, Hallelujah também ganhou vida no hard rock do Bon Jovi, no R&B pop de Alexandra Burke, no gospel contemporâneo do brasileiro Jotta A, no prog do Pain of Salvation, entre muitos outros.


Fontes de Referência:
Telegraph 
Cifraclub

Ademir Fábio Quinot Ströher - ( Duda Renovatio )
Cursou Análise e Desenvolvimento de Sistemas (UDESC) e Filosofia (UFSC) juntando as duas paixões que são a tecnologia e o livre pensar. Idealizador e criador do Portal Pensador Anônimo, o qual foi projeto de TCC (Filosofia da informação) do curso de Filosofia, colocado em prática as teses do Filósofo Francês, Pierre Lévy,( Inteligência artificial; Inteligência coletiva; Cybercultura ). Que a força esteja com vocês!