A letra da música, Admirável Gado Novo, foi escrita na terceira pessoa, ou seja, é um narrador onisciente e objetivo quanto aos fatos relatados – não é influenciado pelas próprias emoções, até porque ele mesmo não faz parte da narração.

A música, Admirável Gado Novo, é um misto de crítica à exploração do povo pela força do trabalho e à manipulação psicológica/intelectual. A principal inspiração é uma obra literária!

O ano era 1979 e, aqui no Brasil, o último presidente da ditadura civil-militar, João Baptista Figueiredo, tinha acabado de assumir o poder.

Nas ruas, continuava a luta incansável pela liberdade de expressão, enquanto na arte misturavam-se os sentimentos de cansaço e de esperança.

O título da música, Admirável Gado Novo, Zé Ramalho faz notadamente uma referência ao livro “admirável mundo novo” do escritor Audous Huxley.

Neste best-seller o escritor defende a ideia de que a sociedade do futuro suprimirá valores como o família, religião, privacidade, dúvida, amor, insatisfação, e todos os momentos da vida de seus cidadãos serão expressamente controlados pelo Estado (cultura, entretenimento, trabalho, relações sociais). Quando alguns desses valores passam a não fazer mais sentido para alguém, então é a hora desse alguém tomar a “soma” – um comprimido que anestesia e elimina qualquer sintoma de insatisfação (basicamente um droga).

Dentro da história, os seres humanos são divididos em castas, e uma delas, a mais baixa, é biologicamente fabricada para servir, fazer o trabalho pesado, sem reclamar e sem sequer ter qualquer consciência sobre o quão injusta é a situação.

Foi dessa história que veio a inspiração para o uso da palavra gado, afinal, é isso que o gado faz no campo: apenas obedece, ainda que inconscientemente.

Análise da letra de Admirável Gado Novo

Fazendo um paralelo entre o livro(admirável mundo novo) e a música(Admirável Gado Novo) vemos alguns elementos em comum. Ambos possuem sociedades estruturadas em uma ordem rígida e de certa maneira opressora – enquanto uma suprime valores como privacidade a outra trata seus cidadãos com “vida de gado”.

Podemos notar também a intenção e compromisso de ambos os Estados em manter a ordem instaurada. O do livro se utiliza de uma droga (a soma), enquanto o outro de promessas que nunca são cumpridas – “Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos projetos do futuro”.

Entenda “projetos do futuro” como uma promessa de que “dias melhores virão”. Se hoje você esta insatisfeito e infeliz com a vida e com o sistema deve manter a calma, pois o sistema esta trabalhando para no futuro inverter este quadro e tornar a sua vida melhor. Tenha paciência. Nessa história a opressão do sistema se mantem irretocável.

No caso da música, a massa são os cidadãos, usados como construtores dos projetos que seus líderes têm para o futuro. Uma população usada como massa de manobra, como diria nosso amigo Regino em O Rei do Gado.

 “É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber” – fazendo referência à mais valia – aonde o operário produz 1000 peças para o burguês, mas o salário disso é suficiente para comprar apenas 1, por exemplo. Marca da opressão. Pode também, perfeitamente ser relacionado ao sistema tributários brasileiro, onde muito se paga e pouco se recebe em troca!

”E ter que demonstrar sua coragem à margem do que possa parecer” – aqui é tratado a alienação do operário, inserido em um mundo onde os ideais de valores são os seus maiores bens (dignidade, honra, mérito, amor, paz, obediência, compromisso) e no entanto, não sabe o porque de tais valores, sua função, interesses e resultados.

Apesar de todos os contratempos, o trabalhador precisa manter a postura e a coragem, já que é dela que depende seu sustento.

“E ver que toda essa engrenagem já sente a ferrugem lhe comer” – autoexplicativo né. Prenuncia aqui o desmoronamento do sistema. Isso porque o oprimido vive cada vez mais desiludido quanto ao seu futuro. No entanto, esse sistema de trabalho, ou mesmo o funcionamento da economia, já demonstram defeitos que indicam um colapso próximo. Mais uma vez, pode-se entender o trecho como uma crítica ao capitalismo e à exploração da força de trabalho

”Lá fora faz um tempo confortável, a vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia, os homens a publicam no jornal” – Há aqui uma crítica pesada ao sistema. O que necessariamente normal? por que é normal expropriar um trabalhador mas é crime roubar um banco para não morrer de fome? Aliás, utilizando uma frase muito conhecida: “eu não sei o que é pior: roubar um banco ou ter um”. Ou seja, nesse pequeno trecho há uma crítica aos valores burgueses.

“E correm através da madrugada a única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada e passam a contar o que sobrou” –Com toda essa exploração constante no trabalho, não sobra tempo pra pensar. Ainda assim, existe uma vaga percepção de que algo está errado, que vem do saudosismo dos tempos em que as coisas eram melhores, e é assim que o autor demonstra que há esperança.

“O povo foge da ignorância apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos, contemplam essa vida numa cela” – agora passa ser uma reafirmação dos argumentos. O povo quer ser respeitado dentro do sistema fugindo de todas as maledicências que possam cair sobre ele, mas isso já é o suficiente para o destruir, enquanto ser consciente, pois fazer parte dessa sociedade já terminantemente degradável. Ainda assim ele espera uma vida melhor, mesmo que em uma cela, por estar preso à rotina tudo que esta ao seu alcance é observar o sistema, a engrenagem – por isso a cela.

”Esperam nova possibilidade de verem esse mundo se acabar” – autoexplicativo.

”A arca de noé, o dirigível, não voam nem se pode flutuar” – Aqui a música faz uma referência à passagem bíblica sobre a arca de Noé. Na história, Deus envia um grande dilúvio que destrói o mundo por completo, deixando intacta apenas a arca e seus integrantes, responsáveis por começar um mundo totalmente novo.

Nesse sentido, a música nos diz que o que mantém viva a esperança é a ideia de que esse mundo pode acabar logo, de que haverá um novo recomeço, talvez uma nova forma de sociedade. Mas, como? Se a arca não pode flutuar, e o dirigível não consegue voar.

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

Nas fazendas, existe o hábito de marcar o gado com o ferrete, um instrumento de metal que é aquecido até ficar em brasa e depois é prensado contra o couro do animal.

Assim, a queimadura com as iniciais do dono identifica o rebanho e organiza o domínio do fazendeiro. Depois desse processo, diz-se que aquele é um gado marcado.

O refrão da música faz referência a essa marcação, e também ao estado de felicidade forçada em Admirável Mundo Novo. Ou seja, estando devidamente manipulados dentro do controle dos líderes, reina no povo a falsa ideia de felicidade.

Ôôô, boi

O cantor finaliza a música com o refrão, e com o mesmo chamado que aparece no começo. Ôôô, boi, é como se fosse o peão chamando a atenção do gado.

E Toca o berrante que a boiada já vem mugindo!

 

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