Início ENTRETENIMENTO Cinema Sorria! Você está sendo Filmado! – Black Mirror

Sorria! Você está sendo Filmado! – Black Mirror

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“Eu não tenho um discurso. Não planejei palavras. Nem tentei. Eu só sabia que tinha que vir aqui para vocês me ouvirem. Para ouvirem de verdade, não fingir que estão ouvindo, como fazem o tempo todo. Para sentirem ao invés de processar. Vocês fazem essa cara, olham para o palco e nós ficamos aqui cantando, dançando e fazendo micagens. E vocês não nos veem como pessoas. Vocês não veem pessoas aqui, só objetos. E quanto mais falso o objeto, mais vocês amam. Porque um objeto falso é a única coisa que funciona. Nós só temos estômago para objetos falsos. Na verdade, não só isso. Dor e depravação também. Amarre um gordo a um poste e nós nos matamos de rir porque fizemos por merecer. Nós já pagamos os pecados e ele está lá na pior, então vamos rir. Porque estamos tão loucos de desespero que não conhecemos nada melhor. Só conhecemos objetos falsos e coisas para comprar. É como nos comunicamos como nos expressamos. Comprando coisas. Eu tenho um sonho. O ápice dos nossos sonhos é um chapéu novo para o nosso boneco. Um chapéu que não existe, que nem está lá. Nós compramos coisas que nem existem. Mostre-me algo real, gratuito e bonito. Não tem, não é? Isso nos quebraria. Estamos muito anestesiados para isso. Nossas mentes sufocariam. Não aguentaríamos coisas boas. Por isso que quando encontramos algo maravilhoso, vocês racionam, e só então ele é ampliado, embalado e distribuído através de 10 mil filtros pré-designados até não ser nada além de uma série de luzes insignificantes, enquanto pedalamos todos os dias, indo para onde? Fornecendo energia para quê? Celas minúsculas e telas minúsculas, celas maiores e telas maiores. Fodam-se vocês! É só o que resta a dizer: Fodam-se vocês! Fodam-se vocês por sentarem aí e tornarem as coisas piores. Fodam-se vocês, seu holofote e suas caras hipócritas. Fodam-se vocês por pegarem a única coisa que chegou perto de algo real, por estragarem e transformarem em mais uma piada suja dentre milhões. Fodam-se vocês por existirem! Por mim, por nós, por todos! Fodam-se!”

Segundo episódio da Primeira Temporada: Quinze Milhões de Méritos (Fifteen Million Merits).

Sorria! Você está sendo Filmado! - Black Mirror

REFLEXO, REFLEXO MEU, EXISTE VISOR MAIS BONITO QUE O MEU?

Há pouco tempo recebi de um amigo a indicação para assistir uma série inglesa antológica de ficção científica que segundo ele, eu iria me identificar, de fato todos os episódios, alguns um pouco mais significativos que outros, mexeram assustadoramente em reflexões que fazem parte do meu dia-a-dia, por ser algo atual e que me incomoda pelo nível que tal atualidade tem feito na mente das pessoas, mesmo as que não se envolvem tão diretamente como acontece com a grande massa da sociedade que mergulha de cabeça em tais tecnologias, que vocês já devem saber quais estou citando.

É quase impossível nós não nos envolvermos ou convivermos de perto com essas inquietações humanas ligadas a esse universo tão prático e contemporâneo presente diariamente em nossa vida, não importando em que país vivemos, independente da aquisição financeira que temos e também da faixa etária de cada indivíduo, aliás, tudo tem tomado um rumo tão absurdo, que diversas vezes já presenciei, talvez você também, crianças com apenas dois anos de idade lidando com muita facilidade aparelhos altamente evoluídos, e assim, conseguindo iluminar as faces de seus responsáveis, que orgulhosos, exibem a proeza e muitas vezes permitem que esses aparelhos venham a se tornar excelentes babás eletrônicas.

Sinceramente, ainda me sinto assustada quando observo as pessoas sendo dominadas emocionalmente por esse efeito tão sedutor, capazes até de se transformarem em objetos. Nada além de objetos úteis ou não para serem comprados, vendidos e abortados com extrema facilidade pelas mãos poderosas de quem lidera esses aparelhos. Infelizmente também tem sido difícil encontrarmos alguém que se dispõe a pensar com sensatez sobre os perigos da exposição pessoal que eles podem colocar a si e seus familiares, quando abrem as portas de suas rotinas diárias nas mídias populares, que obviamente, com muito brilho e beleza, escondem suas faces cheias de intenções destrutivas, atrás dos muitos aplicativos inovadores, dos jogos que cegam crianças e adolescentes, das redes sociais repletas de ringues de humilhações e atrocidades que crescem a cada dia, dos inúmeros sites de diversão que não se importam se estão violentando nossas vidas e brincando com as nossas fraquezas.

É acessível a todos esse sistema e se multiplica como teias virtuais que formam esconderijos para agregar inúmeros e assustadores segredos dos muitos usuários anônimos ou não, que ilusoriamente pensam que estão abafando seus vícios nessas redes, que na verdade trabalha silenciosamente expondo as intimidades alheias através de muitos hackers. Infelizmente muitos recorrem a vários lugares virtuais por medo da solidão e do preconceito que certamente passariam se fossem expor suas faces sem máscaras, mas, o que na verdade há são várias vítimas que facilmente caem nessas teias das aranhas mecânicas. 

FICÇÃO X REALIDADE

Em minha opinião, desde o primeiro episódio percebi que esta brilhante produção não deveria ser chamada de ficção científica, pois ela é a realidade nua e crua não só do futuro que nos aguarda, mas do presente que já estamos vivenciando, por isso então, as  três temporadas de Black Mirror (2011 à 2016) passaram a existir por conta dessa verdade, e ainda que você não concorde ou não goste, a série sem nenhuma cortina de fumaça conseguiu retratar de forma genial, visceral e satírica exatamente uma cópia fiel do século em que vivemos, sem receio de assustar e polemizar.

“Cada episódio tem um elenco diferente, um cenário diferente, até mesmo uma realidade diferente, mas todos se tratam da forma que vivemos agora — e da forma que podemos estar vivendo daqui a 10 minutos se formos desastrados.” Charles Brooker (Criador da série Black Mirror)

Black Mirror é como um dedo que pressiona a ferida que está dentro de nosso consciente, onde cada um de nós solitariamente interage com os monstros e demônios que cercam nossas emoções mais secretas e dolorosas sobre desejos, maldades, vícios incontroláveis e diversos outros fantasmas que aprendemos a lidar em nossas rotinas diárias.

SENTIMENTOS E CONFUSÕES

Como se pode ver, não há nada novo em Black Mirror que consiga nos surpreender, porém, em todas as sequências há uma dura realidade que choca e coloca o telespectador para refletir por longas horas sobre o que temos feito de nossa liberdade, de nosso tempo e que tipo de tratamento temos oferecido às pessoas que conhecemos, convivemos ou somente seguimos virtualmente. Para mim foram horas e dias viciantes em que me vi sendo confrontada pela ousadia que a série tem de nos pôr face a face diante do reflexo do visor do celular e do espelho da nossa alma. A série nos mostra quem realmente somos ou nos tornamos quando estamos dominados ou acorrentados por telas pequenas, médias ou grandes das carcaças caras, fabulosas e com um tempo de vida útil tão insignificante, principalmente diante da grandeza que nós temos dentro da simplicidade de sabermos que somos seres humanos, inéditos, limitados, dispostos a evoluir ou regredir, se esta for a escolha, mas que se soubermos trabalhar em nossa pequenez poderemos criar e cultivar conexões humanas muito mais importantes, marcantes e significativas além dessas que só temos buscado, dando um valor inapropriado e obsceno as engenhosas tecnologias que tanto gastamos nosso tempo.

Mas, entenda bem, não sou inimiga da evolução, por isso penso que não devemos deixar de ter e usar esses objetos, mesmo porque é bom se atualizar, apenas acredito que colocá-los acima dos seres viventes, acima dos abraços e da atenção pessoal, acima da vida natural com sua simplicidade cotidiana, acima da realização e satisfação que somente encontraremos nas sutis alegrias diárias, estaremos retrocedendo. Se colocarmos esses aparelhos como prioridades diante de nossos olhos, sugando o tempo, prendendo as mãos que poderiam estar se ocupando em tocar uma flor, um instrumento, segurar um livro, acariciar a quem amamos, contribuir em algo que poucos querem fazer, erguendo quem está caído, infelizmente nossa essência desaparecerá e assim o ato de constantemente manusear esses objetos deixará de ser sadio, pois acredito as tecnologias existem como apoio e não como domínio e escravidão, porque se assim erroneamente vivermos, esqueceremos da dor e da delícia de ser o que se é, um ser admiravelmente humano. 

VOCÊ PRECISA ASSISTIR

Para finalizar meus pensamentos, assim como fui galardoada em conhecer Black Mirror, passo adiante como uma corrente do bem, por isso indico a vocês duas produções extremamente necessárias para que conheçam e se maravilhem com esta série: conheça os efeitos de uma justiça vingativa e assustadora presente no segundo episódio da segunda temporada: Urso Branco (White Bear) e se avalie também através da tela de sua TV ou Smartphone diante do alto preço desumano que as redes sociais nos instigam e empurram para um abismo pela busca frenética de avaliações altas, nos tornando escravos de uma rasa e insatisfatória realização pessoal, dentro nesse universo de círculos, seguidores e curtidores, que você verá no primeiro episódio da terceira temporada: Queda Livre (Nosedive).

Desconecte sua atenção do visor e ponha o aparelho no silencioso para que a sua visão e audição não sejam interrompidos quando Black Mirror espelhar em seus olhos as verdades que precisam ser expostas.


Por Elienae Maria Anjos


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