Somos escravos das nossas paixões e afetos?

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Somos totalmente livres para agir com nossa razão ou somos absolutamente escravos de nossas paixões e afetos? Li na semana passada o livro De Profundis, escrito por Oscar Wilde quando ele estava na prisão, sendo que a maior parte do livro consiste em uma carta que ele escreveu para aquele que foi o responsável por sua própria ruína.

Somos escravos das nossas paixões e afetos?

Achei que a história de Oscar Wilde exemplifica muito bem essa questão dos afetos e paixões e seu domínio sobre nós. Podemos dizer que Wilde foi vítima de suas paixões, de seus afetos. Devido a seu envolvimento com o rapaz a quem a carta era direcionada, Wilde foi preso, por causa de uma acusação indevida feita pelo pai do rapaz.

O início da carta é cheio de rancor e mágoa e ele descreve com muita clareza o quanto deixou-se escravizar por essa “amizade”, o quanto não conseguia exercer sua arte quando estava sob os domínios da paixão, o quanto sofreu e tentou se livrar incessantemente desse relacionamento destrutivo, mas o quanto sempre acabava cedendo e voltando, fato que acabou levando à sua prisão, que, por sua vez, arruinou sua carreira e o levou à falência financeira.

A vontade é a base do caráter e a minha vontade estava totalmente submetida à sua.” (Oscar Wilde, em De Profundis)

A frase acima mostra que ele não se sentia senhor de seus atos quando estava sob os domínios da paixão. A relação de Oscar Wilde com o tal amigo era de uma profunda desigualdade: Wilde era extremamente amoroso, satisfazendo todos os caprichos do amigo, enquanto esse, por sua vez, era mal agradecido e rude com ele, retribuindo tudo com desprezo. Vendo dessa maneira, fica até difícil de compreender porque um homem tão genial como Oscar Wilde se submeteu a uma relação como essa.

Analisando mais profundamente, percebe-se que havia inúmeros afetos envolvidos nessa relação – que, diga-se de passagem, é muito semelhante a uma grande quantidade de relações afetivas existentes até hoje.

Wilde era um homem muito sensível e com uma capacidade enorme de sentir empatia. Assim, sabia muito bem oferecer amor às toneladas e sentia uma carga bastante pesada de culpa. Já o amigo, por sua vez, era o extremo oposto: um homem egoísta e infantil que não sentia a menor culpa em apenas receber e nada dar. Formou-se a dupla de encaixe perfeito: um transbordando amor e afeto, dotado de um enorme sentimento de culpa, e outro possuidor de uma enorme carência de afeto, sem nenhum sentimento de culpa.

Por que Wilde dava mais do que recebia se claramente estava em desvantagem? Na verdade, ele sentia-se muito superior ao amigo devido justamente à sua capacidade de amar e aguentar o sofrimento. Assim, ao oferecer mais do que recebia, fazia crescer um bichinho muito faminto que vive em todos nós: a vaidade. Wilde sabia que ele era mais forte, mais bem dotado; dar demais era um jeito de humilhar o amigo e mantê-lo, de alguma forma, dependente dele. Quanto mais os caprichos do amigo eram satisfeitos, menos capaz esse se tornava de amadurecer e virar-se sozinho.

No meu caso, não havia outra alternativa: ou eu cedia, ou desistia de você. E levado pela profunda, embora imerecida, afeição que lhe dedicava; pela grande piedade que me inspiravam as falhas do seu temperamento (…) eu acabava cedendo sempre.” (Oscar Wilde, em De Profundis)

O amigo, por sua vez, sentia-se humilhado por sua inferioridade intelectual, financeira e moral. Assim, por um lado aproveitava e exigia cada vez mais receber, receber, receber… mas por outro, sabia que estava por baixo e aquilo o deixava humilhado. Sua reação era a mais básica, realizada por todos que se sentem humilhados por se sentirem inferiores: agressividade.

Quando desce do seu pedestal, você não é nada interessante”, disse o amigo a Oscar Wilde, o que mostra claramente a inveja sentida por ele.

Ao descrever assim essa relação quase doentia dos dois, percebe-se a grande quantidade de afetos envolvidos dos dois lados: inveja, paixão, ciúmes, amor, vaidade, ódio. Qual é a solução para que não fiquemos escravizados por esse caldeirão de paixões que nos assola?

A resposta para isso encontrei em Spinoza, o filósofo dos afetos. Spinoza descreveu os afetos na forma da energia, da nossa potência de agir, que oscila em nosso corpo e que gera alegria ou tristeza, amor ou ódio. Para ele, não há absolutamente como nos livrarmos de nossos afetos. Eles independem da nossa vontade. Dessa forma, não há como sermos totalmente livres. Assim, para Spinoza, a liberdade só é possível quando conseguimos, por meio da razão, conhecer os nossos afetos. Tudo acaba sendo o tal do autoconhecimento, afinal de contas.

Portanto, um afeto está tanto mais sob nosso poder, e a mente padece tanto menos, por sua causa, quanto mais nós o conhecemos.” (Spinoza).

Assim, usando uma metáfora quase simplória, mas que parece ajudar um pouco nesse raciocínio, podemos imaginar que nós somos como uma casa e que dentro da gente vivem inúmeras criaturas que ficam “adormecidas” até serem acordadas e estimuladas por razões externas ou internas.

Vamos imaginar que são cães. Temos um cômodo na gente lotado de cães de diversas índoles e personalidades, tamanhos e ferocidade. Temos de tudo dentro de nós. Dependendo do que acontece dentro e fora da casa, alguns cães são acordados e partem para fora do cômodo, agindo de acordo com sua índole.

Então, se eu não conheço quais são esses cães, não tenho ideia de como eles ficam ao serem provocados, o que os provoca, quais os que mais agem e os que menos agem, como lidar com sua agressividade ou como estimular sua docilidade, fico totalmente à mercê dos acontecimentos.

Algo no mundo provoca um dos cães mais ferozes e eu acabo vítima dele – eu e o mundo. De repente, o cachorro sai da toca e ataca os outros e a mim mesma. Todos saem machucados e resta apenas a opção de limpar a bagunça, curar as feridas. Nesse caso, também resta a opção de culpar o meio externo por tudo o que ocorreu. Ninguém mandou provocar o cachorro bravo.

Por outro lado, se eu tomo coragem e encaro todas as minhas feras de frente, se tenho o cuidado e o trabalho de estudar cada um dos meus afetos, avaliar quais são os mais comuns, os mais violentos, os mais dóceis, o que provoca o surgimento de cada um, não digo que fica fácil, mas certamente, torno-me menos vítima de uma situação sem controle.

Se eu souber como domar o mais feroz dos meus cães, significa que nunca mais ele fará estragos, nunca mais vai me machucar ou machucar outras pessoas? Certamente, não posso afirmar isso. Mas claramente, essa é a única possibilidade de ter controle da situação, de reduzir o domínio dos afetos e paixões e tomar decisões adequadas e apropriadas em cada situação.

Além disso, deve-se sempre aprender com as falhas. Se não consegui dominar de vez agora, posso olhar de frente para a situação e me perguntar onde errei e como posso melhorar na próxima vez. Dessa maneira, aprendemos não a conter os afetos e as paixões, porque eles surgem independentemente da nossa vontade, mas a lidar cada vez melhor com eles. Aprendemos a não ser vítimas dos nossos afetos – e a não fazer outras pessoas de vítimas – mas a usá-los da melhor forma possível, impulsionando aqueles que gostamos e queremos que cresçam e aprendendo a domar aqueles mais agressivos e indesejáveis.

Wilde não foi vítima do homem por quem desenvolveu essa louca paixão; foi vítima de suas próprias paixões e afetos. E, curiosamente, ele mesmo deu a resposta para isso na própria carta ao afirmar que “o verdadeiro tolo, de quem os deuses zombam e a quem tentam destruir, é aquele que não conhece a si próprio”.

Os dois anos que ele passou na prisão foram exatamente o período necessário para que ele olhasse para dentro de si mesmo e aprendesse a conhecer suas próprias paixões e afetos. Tanto é que, conforme o livro avança, a carta vai tornando-se muito menos agressiva.

Afinal, o que pareceu ser a ruína de Oscar Wilde pode ter sido sua salvação. Pelo menos, foi o que o levou a olhar profundamente para si mesmo e compreender-se de uma forma que não seria possível se não tivesse passado pelo imenso sofrimento que foi para ele a prisão e todas as suas consequências.

Para nós, que não queremos precisar ir à ruína para ter que encarar nossas feras de frente, resta apenas a opção de ter coragem e escarafunchar todos os cômodos de nossa casa para encarar de frente essas feras que, afinal de contas, são partes de nós mesmos e deixam de ser tão assustadoras com o tempo.

Finalizando com o próprio Wilde, “cada um de nós tem um céu e um inferno dentro de si.”


Por Juliana Santin


Pensador Anônimo

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