Não sou monge mas passei 10 dias meditando 10 horas por dia

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Faz 6 meses que a Fabiana me pergunta: “Quando você vai escrever sobre o retiro espiritual?”  Eu juro que essa não é minha primeira tentativa, mas não é fácil escrever sobre 10 dias em que você – pessoa que não é monge – passou, em voto de silêncio total, meditando 10 horas por dia, sentada e isolada em um centro de meditação, no meio de uma floresta na Bélgica.

Mas eu estou em um trem, indo para Berlim, tenho mais duas horas de viagem, e vou tentar mais uma vez.

Em outubro do ano passado eu fiz pela primeira vez o curso de meditação Vipassana. Vipassana é uma das técnicas mais antigas de meditação na Índia, foi redescoberta pelo Buda há 2500 anos e ensinada por ele como um remédio universal para o sofrimento.  Não tem nada a ver com religião, é um exercício para a cabeça, uma forma de libertação que serve para qualquer pessoa.

Longe de mim almejar a iluminação, mas faz mais ou menos uns três anos eu comecei a meditar. Primeiro uns 10 minutos por dia, depois 20, e às vezes, em fases de muita disciplina: 30 minutos.

Nada muito profissional. Eu não tinha experiência nenhuma, mas descobri um aplicativo muito legal – sei que parece ridículo, mas juro que não é – e como eu estava chegando nos 40 anos, com a impressão de que eu só ia suportar ficar velha passando para um nível espiritual mais alto, comecei a tentar meditar.

Foi bacana. Recomendo o app e estes dois livros para todo mundo que quer começar. Meditar, mesmo que 10 minutinhos por dia, me ajudou a dormir melhor, a me concentrar com mais facilidade, a me angustiar menos e a dar uma paradinha de um milésimo de segundo antes de tomar atitudes impulsivas. Só que depois de 2 anos de app e vivendo na pele os benefícios de conseguir um pouquinho mais de paz interior, comecei a ficar com vontade de aprofundar minha experiência meditativa.

E foi assim que um amigo meu meio monge/meio executivo, me indicou um centro de Vipassana na Bélgica. Para aprender esta técnica é necessário obrigatoriamente começar com, no mínimo, o curso de 10 dias. Existem centros de Vipassana no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Não custa nada. Nem alimentação e hospedagem são cobrados. Os cursos são mantidos através de doações facultativas e trabalho voluntário de ex-alunos.

A parte doída do negócio é o seguinte: não tem vaselina. São 10 dias sem nenhum contato com o mundo exterior, (sem celular, sem livro, em silêncio) comendo e dormindo pouquíssimo, e meditando como eu disse antes – literalmente –  10 horas por dia.

O cronograma militar é o mesmo no mundo inteiro e funciona mais ou menos assim: acorda 4.30 da manhã, medita 2 horas, café da manhã, pausa para banho, medita mais 3 horas, almoça, medita mais 2 horas, pausa para o lanche, medita mais 3 horas, escuta palestra (calado), medita mais uma hora. Vai dormir (sem jantar). Repete.

Não foi fácil. Houve momentos de pânico (como vou aguentar mais 1 dia aqui?), de tédio profundo (se eu tiver que meditar mais um minuto, me mato), de dúvida (o que eu estou fazendo aqui mesmo???). Mas houve também momentos espetaculares. Nunca consegui ver tanta beleza, sentir tanta paz e gratidão pela vida como eu senti sozinha naquela florestinha na Bélgica.

Existem um monte de coisas óbvias que insistimos em ignorar: a impermanência da vida, o quanto a gente pode ser mais feliz quando a gente faz o bem, a estupidez que é sofrer pelo que está no passado ou no futuro, quando a única coisa que gente tem é o agora, quanto sofrimento nós geramos para nós mesmos por causa do nosso próprio ego. Essas verdades são mais fáceis de ver quando nossa mente está tranquila.

Sei que é o maior clichê falar isso, mas no retiro eu entendi na prática o que significa felicidade interior. Em um momento que foi a coisa mais surreal e maravilhosa que eu já vivi na vida, eu tive uma experiência de dissolução do corpo (free flow para os praticantes de vipassana) na qual eu senti a mais absoluta certeza de que Deus existe, de que Ele existe dentro de mim, e eu tive zero medo de morrer. (ui, eu sei que está ficando cada vez mais difícil acompanhar a viagem astral desse post, mas foi isso que eu senti!)

Bom, agora de volta à vida real. Neste final de semana em Berlim, vou encontrar a Dalida. Uma espanhola de Madrid, DJ, que foi minha companheira de quarto no retiro. Passei 10 dias dividindo um quartinho com ela e uma holandesa sem trocar uma palavra. Só no último dia, quando acabou o voto de silêncio, que conversamos. Trocamos telefone e eu prometi que a próxima vez que estivesse em Berlim ligava para ela.

O final do nosso chat no whatsapp foi mais ou menos assim:

Ela: Te apetece unos cócteles hoy por la noche?

Eu: Sí, muchísimo, la verdad es que estoy necesitando mucho de unos cócteles.

Ela: Bueno, perfecto, yo también. A lo mejor nos emborrachamos.

Como é possível perceber através da banalidade do diálogo acima, depois de meditar por 10 dias não aconteceu nenhum milagre na vida da Dalida, nem na minha. Assim como eu, na maioria das vezes, ela ainda deve buscar a felicidade num coquetel, numa roupa nova, numa relação amorosa… em qualquer lugar fora de si mesma.

O bacana de ter feito o retiro, contudo, é que mesmo que você resolva continuar dando murro em ponta de faca e buscando a felicidade em fatores externos, no fundo, você sabe, porque provou na pele, que essa tal de felicidade não está em lugar nenhum, está dentro do peito. E entender que isso é a verdade e não uma frase feita tirada de um livro de auto-ajuda já é uma enorme evolução.


Por: Camila Furtado


Pensador Anônimo

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