Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentido

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Há alguns dias me peguei pensando sobre nossa consciência. Existem tantas teses e buscas para descobrir seus segredos, que ainda é muito difícil determinar com clareza sobre seu surgimento. Mas foi em um dos momentos mais complexos da minha vida que me deparei com um pensamento.

Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentido

Somos seres naturalmente existencialistas, e a cada dia estamos mais cercados de perguntas e dilemas que parecem não terem respostas. Se a ansiedade é sua amiga diária, puxe uma cadeira e fique atento; vou lhe contar um pensamento que  pode acalmar suas paranoias, ou aumentá-las…

Mas antes a história de onde meus pensamentos vieram, para que vocês entendam para onde eles vão.

A felicidade é uma armadilha

Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentido

Tudo começa aqui. Encontrar a felicidade é a maior aventura da nossa espécie. Não à toa, provavelmente a mais complexa. A felicidade não é objetiva e isso a torna quase inalcançável. Um dos meus ídolos literários favoritos, Daniel Kahneman, estudou e compreendeu como ninguém sobre esse tema, então irei compartilhar um pouco do que aprendi com ele.

A maior dificuldade de se encontrar a felicidade está nas armadilhas cognitivas que o nosso cérebro produz. Nossa incapacidade de admitir a complexidade de uma definição do que é felicidade para nós, torna o significado da palavra ao mesmo tempo profundo e leviano.

Imagine a seguinte situação: você vai a um restaurante. E durante todo o jantar, têm uma experiência muito boa. Porém ao fim da noite, você acaba derrubando o vinho que estava tomando na sua roupa favorita, manchando-a sem volta. Como você diria que foi sua noite, boa ou ruim?

A maioria das pessoas diria que foi ruim, por causa da situação final. Ao ler, é possível que você decida pelo “boa”, mas vivendo a situação a resposta tende a ser diferente.

Mas porque nós esquecemos de todo o resto bom e ficamos com a experiência ruim final?

Pois nós ficamos com a memória do que aconteceu, e a memória foi arruinada pelo pico de sentimentos do final. E dentro de nós existem três “eus”, o “Eu da memória”, o “Eu da Experiência” e um outro que discutiremos ao final.

  • Memória x Experiência

Vamos entender o que cada um é. Você vai ler muito as expressões “Eu da lembrança” e “Eu da experiência”, será preciso para não haver confusões.

  • O “Eu da lembrança”

O “Eu da lembrança” é aquele que registra as coisas, que conta a estória da nossa vida, é ele que dá o parecer sobre como as coisas aconteceram. Como exemplo, é ele que responde a pergunta de um médico quando ele diz: “Como a dor estava?” ou “Como você tem se sentido ultimamente?”.

O eu da lembrança é automático, ele nos conta estórias sempre que revivemos algo. Não somente quando queremos contar algo à alguém, mas também quando queremos lembrar de algo. É ele que registra o que o “Eu da experiência” viveu. O maior problema é que ele pode nos contar algo que não condiz com o que realmente aconteceu.

O nosso “Eu da lembrança” é facilmente enganado por armadilhas cognitivas, como o exemplo do vinho derramado. Ele é como uma pasta “.zip”, comprimindo vários arquivos em uma única lembrança. Ao “nomear a pasta” para que você a acesse no futuro, ele escreve, “momento ruim que o vinho manchou minha roupa”. E dentro da pasta, coloca todo o jantar também.

Para o nosso “Eu da lembrança”, o importante para a estória registrada, serão as mudanças, os momentos significativos e principalmente os finais no curso da história real.

  • O “Eu da experiência”

O “Eu da experiência” vive no presente, entende do presente. É capaz de relembrar o passado, mas basicamente possui só o presente. Como exemplo é ele que responde a pergunta de um médico quando ele diz: “Dói quando eu aperto aqui?”.

Ele vive continuamente, momento a momento. Sendo que cada momento pode ser cientificamente medido a cada 3 segundos, significando que ele vive de 3 em 3 segundos. E você pode se perguntar, o que acontece com todos esses momentos? E a resposta é que; eles simplesmente desaparecem para sempre.

Mas de certa maneira acreditamos ser importante cada momento da nossa vida. Que o que temos são esses finitos momentos durante um período de existência, e cada um deles deveria contar. Porém não é isso que nosso “Eu da lembrança” registra, deixando a grande maioria dos momentos para trás.

  • Uma questão de TempoFelicidade e consciência: a evolução que não faz sentido
  • Você percebe o tempo de duas maneiras. Enquanto ele está acontecendo e depois que ele ocorreu. E mesmo quando ele está para ocorrer (futuro), ele é sentido como se já houvesse ocorrido, já explicarei.

    Para o “Eu da experiência” se você tirar duas semanas de férias, e a primeira for tão boa quanto a segunda; então duas semanas são o dobro de aproveitamento. Mas para o “Eu da lembrança” não faz tanta diferença, pois não há nenhum momento crítico a ser adicionado, não houve mudança na história. Depois das férias terem ocorrido, uma semana ou duas, serão sentidas da mesma maneira.

    Sendo o “Eu da lembrança” responsável por registrar os momentos, é ele que toma as decisões. Nós não escolhemos entre experiências, nós escolhemos entre memórias de experiências. E elas podem ser bem distorcidas da realidade.

    É por isso que pensamos no futuro como o passado, não vemos as experiências que nossas escolhas proporcionarão. Vemos como experiências futuras serão lembradas por nós no futuro. Nós vamos mais a frente na linha do tempo, para olhar se nos lembraremos com gosto de lembranças que ainda nem vivemos. Eu sei, é complicado.

    É exatamente esse paradoxo entre os dois “Eus” que faz com que você tenha experiências que vão parecer inúteis. Seu “Eu da lembrança” vai arrastar o “Eu da experiência” por momentos totalmente dispensáveis.

    Tente se lembrar quanto tempo você gastou relembrando uma viagem que fez? Ou seja, o quanto você consumiu uma lembrança? Tiramos centenas de fotos todos os dias, porque o “Eu da experiência” acha que é importante ter história para relembrar. Mas no fim, quantas foram as vezes que você abriu um álbum e consumiu essas fotos?

    Para finalizar essa parte, tente identificar seus dois “eus”. Tente entender o quão feliz é com o que está fazendo agora (Eu da experiência) e o quão feliz você se sente com sua vida (Eu da lembrança). A ciência tem uma noção do que controla nossa felicidade:  dinheiro, objetivos, e a qualidade e quantidade do tempo que passamos com quem amamos.

    Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentido

    A consciência

    Estão acompanhando? Vamos adicionar outra ideia então.

    A consciência ainda é um grande mistério. Não sabemos ao certo quando ela se formou. Ou seja, quando passamos de apenas seres cumprindo tarefas biologicamente pré-determinadas, para seres que podem “escolher” o que fazer. Notou as aspas no escolher? Isso porque uma boa parte de nossas decisões, não são tomadas conscientemente, o que significa que a nossa consciência ainda permeia somente certa parte de nós. Se você ficou confuso, nas próximas semanas haverá um texto só sobre quem nós somos, que irá abordar mais a fundo essa questão.

    Há ainda uma outra dificuldade. Determinar com clareza o que é de fato a consciência.

    Deixando de lado as descrições de dicionário, a ciência basicamente determina que a consciência é um filme que só você assiste. Reunindo a história de sua vida, suas preferências, suas emoções e reações automáticas. Sua personalidade como um todo. É possível obter uma ideia do que ela é, mas as coisas são mais complexas do que isso. Vamos complicar um pouco então, adicionando algumas  “hipóteses”.

    • Humanos x O resto

    Até onde a consciência permeia os diferentes seres? O resto dos seres vivos além de nós aos quais me refiro, podem ser descritos como: animais (cachorros, gatos, macacos, rinocerontes, girafas etc.), insetos (todos), vida microscópica (fungos, bactérias, vírus) e plantas. Usei estes exemplos para facilitar o entendimento sobre cada grupo. E escolhi estes “macro-grupos” para facilitar a discussão, estou propondo somente uma hipótese inicial.

    Assim, a cada passo que damos em direção ao próximo item da lista acima, o “ser” parece ter cada vez menos consciência, mas como delimitar a quantidade e se tem ou não?

    • O “Eu da lembrança” (EL) e o “Eu da experiência” (EX) como medida de consciência

    Eu deliberadamente decidi propor uma nova forma de medir o nível de consciência, uma nova abordagem que possa abrir novas discussões e vertentes de pesquisa. Medir o “Eu da lembrança” e o “Eu da experiência” em cada ser vivo, para determinar o quanto há de consciência em cada um deles.

    — Animais: é possível dizer que possuem tanto o EL quanto o EX.

    Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentidoEles podem se lembrar de eventos passados, como reconhecer o dono, lugares, lembrar de como reagir em certos eventos. E aproveitam e reagem ao momento em que estão vivendo.

    Questões: Apesar de possuírem memória, eles podem refletir sobre ela? Animais com depressão, estão infelizes pois não estão tendo experiências felizes ultimamente, ou porque eles não se sentem bem com a vida que têm? Eles têm consciência sobre a morte? Para alguns animais, o quão forte é o instinto sobre a memória?

    — Insetos: é possível dizer que possuem o EX, e ponderar sobre a presença do EL.

    Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentidoEles reagem ao ambiente e com o ambiente. Um inseto reage ao toque ou a aproximação, mostrando que ele está consciente do momento em que vive.

    Para determinar a presença do EL, precisamos eliminar reações geradas por instinto, que não corresponde a memória, mas podem ser observadas com frequência. Nos insetos houveram somente alguns que foram domesticados: o bicho-da-seda, a abelha, as cochonilhas do carmim e da laca, e a drosófila ou mosca-do-vinagre.  A domesticação,  parte do principio da mudança de comportamento de uma espécie, para que se adapte ao convívio humano e que desempenhe algumas tarefas. Requerendo certo grau de memória para desempenhar certos tipos de tarefas, ou para recordar o convívio com o homem. É possível através de experimentos identificar a memória de alguns insetos.

    Questões: Insetos ficam tristes? Eles podem ser condicionados por reforço positivo? Sabem que vão morrer? A domesticação foi uma alteração da memória ou de uma reestruturação de processos automáticos?

    — Vida microscópica: tanto o EL quanto o EX aparentam não existir, porém…

    Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentidoAparentemente não é possível delimitar o quanto a vida microscópica reage ao ambiente propositalmente ou por instinto. Entretanto, alguns estudos recentes apresentaram que bactérias individuais possuem memória curta, e em grupo adquirem memória coletiva, aumentando o tempo de recordação. As bactérias expostas a uma concentração moderada de sal, sobrevivem a uma segunda exposição com uma concentração de sal mais elevada, melhor do que se não tivessem sido expostas antes.Nas bactérias individuais esse efeito é de curta duração. Após apenas 30 minutos, a taxa de sobrevivência não depende mais do histórico de exposição. Ou seja, é como se elas esquecessem sobre a exposição ao sal, após 30 minutos.

    Porém em conjunto, elas adquirem a habilidade de manter essa “memória” por um tempo maior, tornando-as mais dependentes de um grupo grande de indivíduos

    Questões: Estes organismos estão cientes do que estão fazendo, enquanto o fazem? A “memória” descoberta, é uma espécie de lembrança ou uma readaptação de sistemas automáticos?

    — Plantas: Possuem tanto EX quanto EL, mas de uma maneira diferente.

    Felicidade e consciência: a evolução que não faz sentidoPode parecer complexo, mas já existem evidências que nos levam a essa conclusão.

    As plantas possuem uma rede de fungos que as conecta, como uma internet. O assunto é interessante, porém complexo, em resumo elas usam essa rede para trocar informações e nutrientes, entre outras coisas. Caso queria ir mais a fundo, leia o artigo completo na URL acima.

    Através desta rede elas compartilham informações sobre pragas que a estão atacando no momento, para que outras plantas possam criar mecanismo de proteção. Uma boa prova do EX, entendendo o que está acontecendo e respondendo no momento. O EL pode ser representado pela forma como elas armazenam informações do passado, e reagem da mesma forma perante os mesmos eventos ao longo de sua vida.

    Questões: Elas estão conscientes sobre quais nutrientes precisam trocar, ou é uma resposta automática a falta deles? As respostas aos estímulos são conscientes?

    Mas e os humanos, onde ficam?

    O paradoxo da consciência

    A viagem até aqui não foi das mais curtas, mas há um motivo. Se eu lhes contasse no começo, o que vou escrever agora, não haveria sentido.

    Meu pensamento era, sobre como nossa consciência não faz muito sentido para a evolução.

    Muitos acreditam que a Teoria Evolutiva descreve como os seres se adaptam a um ambiente através das gerações. Porém o correto não se encaixa muito bem a esse pensamento. Os seres possuem mutações genéticas randômicas, significando que em uma mesma espécie diferentes novas características irão aparecer nas novas gerações. Então as que consequentemente tiveram as melhores adaptações para o ambiente irão sobreviver, e o resto irá desaparecer. Deixando muito claro, que a evolução natural não segue um caminho, não possui um sentido e nós não somos o “fim da linha”.

    Seguindo então a teoria, por definição nossa consciência faria sentido, pois aparentemente ela nos proporcionou a sobrevivência no ambiente. Entretanto após as novas evidências que coletei, passei a olhar esse “trajeto evolutivo” um pouco diferente.

    Se lembra daquele terceiro “eu” que nós possuímos?

    O “Eu reflexivo”. Ele é aquele que consegue juntar passado, presente e futuro. Pondera e analisa a nossa vida e tudo que está a nossa volta. Mas ele tem um grande defeito, a busca por sentido.

    Como nós enxergamos perfeitamente uma linha do tempo  para a nossa vida. Sabemos sobre nosso nascimento e morte, tendemos a crer que a vida deveria possuir uma razão para nossa existência. A partir desta crença, começamos a traçar um caminho que procura por um sentido maior. Nossas atitudes rumam em direção ao futuro e poucas vezes levam em consideração o caos que a vida adiciona aos nossos planos.

    A nossa consciência parece não notar a completa indiferença do Universo perante nós.  Passamos a ficar cada vez mais depressivos diante a realidade que não satisfaz nosso “Eu reflexivo”. Deixando um paradoxo entre o quanto ele deve avaliar nossa vida, versus a incapacidade de deixar de lado um propósito para ela.

    A liberdade com a evoluçãoFelicidade e consciência: a evolução que não faz sentido

    Foi assim que meu pensamento fez a junção entre a felicidade e a consciência. Me parece que a nossa sobrevivência e melhor adaptação ao ambiente, independe da nossa felicidade. Que só é produzida de acordo com nossa consciência. A presença da química no nosso cérebro, que adiciona Serotonina, Oxitocina, Dopamina e Endorfinas, parece mais atrapalhar do que ajudar.

    A Serotonina em especial, em sua ausência é a principal responsável pela solidão e depressão. E nossa consciência parece não estar adaptada a nossa existência, causando cada vez mais distúrbios no equilíbrio destes elementos.

    De certa forma, ainda que nossa visão esteja limitada antropologicamente, e não possamos avaliar com clareza os próximos passos da nossa evolução. Parece sensato acreditar que os próximos indivíduos dotados de uma mutação, que dê a nossa consciência uma visão mais clara de nossa vida insignificante, possa nos mover em uma direção diferente. Uma direção na qual nós não estamos presos nas correntes do “destino”, que não nos aprisiona a uma busca por sentido e que não interfira na nossa real felicidade. Que haja então uma consciência que nos permita viver as experiências mais intensamente, que o passado esteja vivo em nossas lembranças e que nos permita que cada momento realmente valha a pena viver. Estaremos libertos das depressões por buscas sem sentido e assim poderemos preencher este espaço insignificante entre o nascimento e a morte, com o melhor que o Universo pode nos proporcionar.

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