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A burra unanimidade do senso comum

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Desde os primórdios da humanidade, certas características de um pensamento coletivo e uniforme são elevadas a categorias de uma falácia tornada verdade, concretização de uma generalização perversa para encaixar grupos, pessoas, seres e ideias como algo ruim, decrépito e nocivo à sociedade. Estou falando do já consagrado senso comum, tão em evidência nos últimos tempos, graças ao seu predomínio nos meios de comunicação. O senso comum é fato consumado para legitimar argumentos retóricos, geralmente inconsistentes, permeados por concepções generalistas  dos fatos relatados.

A burra unanimidade do senso comum

A noção do senso comum é ao longo da História, um perpetuador de preconceitos e visões distorcidas sobre as mais variadas temáticas. Ele serve como amparo para conservar desigualdades, estabelecendo superioridades de determinado ponto de vista acima do restante. Ele está historicamente vinculado a ideia que os setores predominantes socialmente nas mais diversas áreas (econômicas, políticas, culturais, artísticas, etc…) tem sobre os ditames e o modo de como eles enxergam o mundo e a vida. Ou seja, o senso comum é em certa medida, a visão de mundo imposta pelo grupo dominante tornada verdades graças a instrumentos de convencimento, utilizados com o intuito de preservar uma determinada estrutura de pensamento vigente coletivamente.

A generalização dos conceitos perpassados dentro do senso comum se imbrica diretamente com as relações de poder presentes no convívio humano. Superioridade de um gênero, etnia, nacionalidade, filosofia, comportamento, cultura: O senso comum vai dando autoridade e impondo maneiras as quais devemos ser conduzidos, ou ideias a serem conservadas como certezas concretas. É utilizados na falta de argumentos plausíveis em muitas discussões, sendo consagrado nos mais variados jargões.

Isso é facilmente percebido ao darmos um olhar sobre a cronologia do tempo em relação ao que fora taxado como senso comum nas mais diversos períodos históricos da humanidade. Carregam estereótipos a fim de caracterizar algo, alguém ou grupo como diferente, estranho, defeituoso, ruim. Indo por esse viés, o senso comum vai estabelecendo vilões e heróis, certo e errado, o bom e o mau, o que é justo e de bem. Usando de um simplismo dicotômico de 8 ou 80, o pensamento torna-se uniforme, sem nenhuma reflexão ou problematização com um mínimo de coerência ou mesmo racionalidade, usufruindo de um autoritarismo convencionado com o selo de veracidade.

Lembremos de alguns casos ao longo da História: O senso comum já considerou que judeus eram culpados pelo mal da humanidade e assim legitimou massacres e perseguições a um povo, servindo de bode expiatório na idade media pela culpa da peste negra; durante boa parte da era moderna e contemporânea sendo alvo para as pedras atiradas sobre os problemas econômicos e sociais do Ocidente, isto tudo desembocando no holocausto levado a cabo pelos nazistas durante a 2ª Guerra. O senso comum estabeleceu aos judeus a pecha de avarentos, interessados somente em lucrar monetariamente a qualquer custo, e ainda hoje muitos utilizam “judeu” como adjetivo quando se quer referir-se a alguém como sovina e pão-duro.

Outro senso comum que permanece é o de cunho racista. Foi estabelecido que os negros, devido a sua cor, “não tinham alma”, assim sendo passíveis de serem escravizados, na visão religiosa. Depois, a ciência legitimou a ideia de “inferioridade” com as teses evolucionistas e do darwinismo social. Por fim, as leis deixaram isso claro com a segregação de espaços e de exclusão do direito à cidadania para os negros. As consequências deste senso comum atualmente se reflete na alta desigualdade e condição de vida impostas a maioria da população negra ao redor do globo. No caso brasileiro, não é raro ouvir alguém falar frases como “isso é serviço de preto”, “preto não é gente”.

Inconscientemente não se percebe que um aparato ideológico está sendo cimentado através deste discurso. Ele está tão atrelado a rotina das falas e expressões popularizadas pela comunicação de massa marteladas por propagandas, discursos e interpretações, que na prática, sua presença acaba se camuflando perfeitamente. Está tão diluído no comportamento cotidiano, que atos extremos de violência são influenciados por discursos nocivos do senso comum, mas que aos olhos do público, passam a margem, velados através de falsas crenças e credos.

Se pautarmos pela ética humanista, vamos concluir obviamente, que o senso comum tende a ser mantenedor de formas de opressão e controle eficazes sobre um grupo ao qual o status quo tira proveito, utilizando-se de determinado discurso para assegurar seus direitos de dominação e poder sobre outrem. O senso comum é arma perfeita, pois tira a capacidade de pensar por outro viés, de dar vazão a ideias de resistência e confrontar, convencendo até mesmo quem está sendo seu alvo de que merece tratamento desigual devido a sua condição de suposta “inferioridade”.

Exemplos de como o senso comum dissemina e estabelece preconceitos não faltam. A questão a ser resolvida é como proceder para extirpar essas perversidades incrustadas no pensamento. O bombardeio de informações que discreta, ou indiscretamente, usa da retórica generalista, dificulta uma reeducação de si mesmo para não cair no erro de perpetuar burras unanimidades. Essa reconstrução de pensamento geral é um processo de aprendizado através de reflexão e empatia, levando em conta detalhes, sair do seu quadrado, pois cada caso tem seu causo. A História parece sempre nos dar algum tipo de lição, e no caso do senso comum é que ele pode estar também a serviço da banalidade do mal.


Por Guilherme Lima


Pensador Anônimo

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