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Emicida e seu clipe, “tapa na cara”, Boa Esperança

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Um tapa que começou com Rosa Parks sentando onde não podia. Um tapa representado pelos braços negros cor Pantera de Tommie Smith e John Carlos. Um tapa que passou pelo Brasil nas vozes de Tim Maia, Thaíde e DJ Hum e Racionais MC`s. Uma bofetada cantada por Pavilhão 9: “A bomba vai explodir”. Uma revolta bem lembrada pelo Yuka: “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”. É difícil lembrar de uma paulada tão forte quanto essa do Emicida. Talvez o Facção Central manchando de sangue o Espaço Rap da 105 FM? Talvez.

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Em tempos de discussões tão afloradas sobre temas sociais, o clipe do Emicida, na verdade, não é um tapa. É um aviso. “Cês diz que nosso pau é grande. Espera até ver nosso ódio”.

Há mais de 25 anos, o Brasil viu nascer a lei que determina pena de reclusão para quem praticar atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pouco mais de 100 anos depois da abolição oficial da escravidão, em 1888, a Constituição Federal determinou que o crime de racismo é inafiançável e imprescritível. Porém, passado tanto tempo, é notório que a lei não foi o suficiente para fazer com que a população negra deixasse de ser vítima de violência racial.

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É o que escancara o clipe de Boa Esperança, o primeiro single do próximo álbum de Emicida, ainda sem título, mas com previsão de lançamento neste segundo semestre. A trama gira em torno de um grupo de empregados domésticos de uma mansão que, depois de sofrer todo tipo de humilhação, se rebela contra os patrões e incita uma revolução em todo o país. O vídeo reproduz uma espécie de “nova Casa Grande e Senzala”, livro do sociólogo Gilberto Freyre que trata sobre a formação da sociedade brasileira: os brancos (e ricos) são servidos por mãos negras e pobres que só têm acesso aos restos e ao desprezo.

Com direção do fotógrafo João Wainer (do documentário Junho) e de Kátia Lund (de Cidade de Deus), o roteiro nasceu de um processo coletivo entre Emicida, os diretores e empregadas domésticas que moram na Ocupação Mauá, no centro de São Paulo. Para compôr a letra, o rapper se inspirou em uma viagem que fez à África. “O tempero do mar foi lágrima de preto/ Papo reto, como esqueletos de outro dialeto,/ Só desafeto, vida de inseto, imundo/ Indenização? Fama de vagabundo.”

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Boa Esperança apresenta os vários tipos de violência sofridos pelos empregados, tais como assédio sexual e moral. Depois de ser assediada pelo patrão, uma das domésticas negras é humilhada pela dona da casa, gota d’água que desencadeia a rebelião de todos os empregados. “Cês diz que nosso pau é grande/ Espera até ver nosso ódio// Por mais que você corra, irmão/ Pra sua guerra vão nem se lixar/ Esse é o xis da questão/ Já viu eles chorar pela cor do orixá?/ E os camburão o que são?/ Negreiros a retraficar/ Favela ainda é senzala, Jão/ Bomba relógio prestes a estourar”, canta Emicida.

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O clipe traz no elenco o próprio rapper, que interpreta o porteiro do prédio onde o motim acontece, dona Jacira, mãe de Emicida, Domenica e Jorge Dias, filhos de Mano Brown, a modelo Michelli Provensi, Divina Cunha e Raquel Dutra, ambas moradoras da Ocupação Mauá.

OCUPAÇÃO MAUÁ

A Ocupação Mauá, localizada na Luz, no centro de São Paulo, foi criada em 2007, sofreu uma ameaça de reintegração de posse em 2012, e passa, no momento, pelo processo de desapropriação iniciado pela prefeitura na gestão Haddad. O prédio, onde vivem mais de 200 famílias, foi cenário da gravação do clipe “Marighella”, dos Racionais de Brown.

Lá, os diretores e um preparador de elenco se reuniram com moradoras para ouvir suas histórias na profissão de empregadas domésticas. “Algumas histórias nos marcaram muito, como uma, da dona Divina, que contou que um dia estava conversando com a patroa e rindo, e a patroa disse ‘nossa, parece uma égua’,” conta Kátia.

Dona Divina foi escolhida para representar uma das personagens, assim como outras moradoras da Mauá, todas com vivência como empregadas. Além delas, de dona Jacira e de Domênica, participam ainda no clipe —na posição dos revoltosos— Jorge Dias, irmão de Domênica, como o mordomo, a modelo Michelli Provensi, além do próprio Emicida, no papel do vigia da mansão.

“Boa Esperança” faz parte do novo álbum do rapper, que deve ser lançado em agosto e trará inspirações da viagem de Emicida a Angola e Cabo Verde, países da África lusófona, no começo do ano.

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