Em vídeos, educadora brasileira orienta os pais a usarem vara para “disciplinar” crianças

“Em bebês antes de 1 ano de idade, você precisa dar uma chacoalhadinha ou dar um tapinha na mão ou na coxinha”, sugere a mulher, em uma das publicações que têm revoltado pais e mães em grupos de mensagens

“Com que idade posso começar a usar vara?”. Não, você não leu errado. Essa foi uma das perguntas que a educadora, escritora e palestrante, Simone Gaspar Quaresma, recebeu de suas seguidoras nas redes sociais, referindo-se à educação dos filhos. A primeira impressão é de que se trata de uma brincadeira, mas Simone responde. “Se você  falando com um bebê com menos de 1 ano de idade, às vezes, você precisa só dar uma chacoalhadinha nele, um tapinha na mão, na coxinha dele, pra que ele acorde”, orienta ela. “Mas com o passar do tempo, ele vai começar a entender. E quando você perceber que ele está entendendo, a coisa tem que ser mais incisiva, e largar esses ‘sustinhos’ pela vara mesmo”, afirma.

As orientações chocaram mães e pais na web, como a digital influencer Paula Chohfi Sacchi. Ela diz que teve acesso aos vídeos por meio de um grupo no WhatsApp. “Eu voltava e assistia de novo porque achei que tinha entendido errado. Eu não sabia que isso existia no Brasil. E eu me senti na obrigação de fazer alguma coisa, em vez de só repassar no grupo”, conta.

Educadora choca em vídeo ao sugerir chacoalhar bebês e usar vara - Assista:

“Como eu tenho uma rede social com um número expressivo de mães, compartilhei e pedi que elas denunciassem o perfil dessa mulher. Pois, a partir do momento em que se compartilha ensinamentos em uma rede social pública, incitando algum tipo de violência doméstica, principalmente a infantil, se torna uma ofensa à lei e à integridade física das crianças”, defende. No entanto, depois de criticar a postura da educadora, Paula diz ter recebido centenas de mensagens de ódio. “Recebi ameaças à minha família, a meu filho… Isso me chocou muito”, desabafa.

Confira abaixo o vídeo que está circulando nas redes sociais:

Segundo a digital influencer, os vídeos estão salvos no perfil de Simone, que teria limitado o acesso à rede social dela desde esta quarta-feira (27). A reportagem da CRESCER teve acesso aos conteúdos. Confira a descrição de alguns trechos:

“Não, a aplicação da vara não depende do temperamento da criança. A criança pode ter o temperamento que ela quiser, o uso da vara é mandamento bíblico pra toda e qualquer idade, pra todo e qualquer temperamento.”

“O objetivo é fazer com que doa, mas não pode machucar a criança.”

“Quando a criança tem idade pra te desafiar, ela tem idade pra apanhar.” 

Sobre disciplinar em público, ela diz: “Em primeiro lugar, a gente precisa ter cuidado com isso, porque, sabe como é, hoje em dia os pais não têm direitos mais.”

“Não tem como você criar filhos da maneira como você acha, como você quer, tem que ser como a bíblia manda.”

A educadora ainda recomenda que os pais não devem sentir pena de crianças com atrasos cognitivos leves ou deficiência física, e diz que eles devem orientar as crianças a não comentarem com outros adultos sobre o que acontece dentro de casa. “Isso é lamentável. A criança é reflexo dos adultos. Se ela é agredida, ela entenderá que pode agredir também. Já não estamos fartos dessa sociedade violenta? Vamos educar nossos filhos para perpetuar esse comportamento?”, questiona a jornalista e mãe, Juliana Santos Tardioli, 40, que também recebeu os vídeos pelo aplicativo de mensagens. “Vi esses vídeos e fiquei enjoada, cheguei a chorar. Não tem cabimento”, declarou Paula Carvalho, outra mãe que também teve acesso ao conteúdo.

INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA É CRIME?

Desde 2014, qualquer ação punitiva ou disciplinar com emprego de força física que resulte em sofrimento físico ou lesão a uma criança ou adolescente é considerada crime, de acordo com a Lei da Palmada. Mas a punição não diz respeito apenas a quem aplica o castigo físico. “Com base nas imagens veiculadas, encontramos várias violações”, afirma o advogado Ricardo Cabezón, especialista em direitos da criança e do adolescente, membro da OAB/SP, que teve acesso aos vídeos. “No âmbito criminal, podemos enquadrar a conduta como incitação ao crime de maus tratos, por representar excesso no exercício dos poderes que os pais possuem de correção junto aos seus filhos; ou mesmo crime de tortura, quando faz clara alusão à advertência física em bebês. Nesse caso, a pena de reclusão pode variar de dois a oito anos”, explica.

“Além disso, importante destacar que a protagonista do vídeo alerta para não deixar marcas, ou seja, meios de dificultar a ação do Estado na responsabilização da conduta ilícita, o que torna ainda mais execrável sua postura e caracterizadora de agravante”, afirma o advogado. “Realmente isso é algo grave e deve ser encaminhado às autoridades para a adoção das respectivas medidas cíveis e criminais”, finaliza.

Para a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar (SP), os pais e profissionais podem ter filosofias e visões diferentes sobre educação, mas o que ultrapassa a lei deve ser observado. “O que se percebe, nesse caso, é uma pessoa com uma visão absolutamente retrógrada, disseminando algo que se tornou crime, e essa falta de crítica é o mais surpreendente. É como se a pessoa não tivesse consciência de que se trata de algo ilegal”, completa.


Via Crescer

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