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Antes o pessoal era político, hoje o pessoal é pessoal

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– Trechos transcritos de palestras da feminista Gail Dines

Por Carol Wojtyla, do Festival Marginal

Jennifer Baumgardner, uma das líderes do feminismo de terceira onda, escreveu no site Alternet em 2000:

“Feminismo é algo individual para cada feminista”

Bom, eu pensei que feminismo fosse um movimento onde todas nós partiríamos dos mesmos princípios, mas aparentemente não, é o que cada uma acha que é.

O que isso quer dizer e como diabos chegamos aqui?

Antes o pessoal era político, hoje o pessoal é pessoal

Em poucas gerações, como passamos de um feminismo que dava na cara da sociedade e mandava ela se foder, pra isso?

O ponto chave foi uma declaração  feita por  Margaret Thatcher em 1987:

“Não existe essa coisa de sociedade, apenas indivíduos, homens e mulheres”

Foi um momento crucial na história, onde qualquer  tentativa de criar uma sociedade coletiva pós segunda guerra mundial foi minada pela dupla Thatcher/Reagan. Foi quando o verdadeiro neo-liberalismo começou.

O neo-liberalismo parte do princípio de que somos todos indivíduos.

Nada é coletivo, não existem interesses de classe, não existem interesses coletivos.

Mas na verdade, isso só se aplica aos oprimidos.

Antes o pessoal era político, hoje o pessoal é pessoal

A classe opressora sabe muito bem que isso é tudo papo-furado. Eles sabem muito bem agir como uma só classe. Somos nós, os oprimidos, que não devemos agir como uma.

Antes o pessoal era político, hoje o pessoal é pessoal

Algumas poucas multi nacionais  controlam praticamente toda a economia mundial. Elas controlam tudo que você faz, assiste, come, veste e compra.

Elas se instalam para explorar um país e assim que os sindicatos desse país começam a se fortalecer, elas partem buscar o próximo país para explorar.

O neo-liberalismo capitalista é como um Robin-Hood ao contrário: ele arranca dinheiro dos pobres para dar aos ricos.

Um exemplo: a renda dos 1% mais ricos subiu 256% entre 1979 e 2006, enquanto a renda dos 20% mais pobres subiu apenas 11%.

A classe trabalhadora foi dizimada pelos 1% mais ricos.

O fato da economia ter entrado em crise não foi um acidente, foram anos de planejamento estratégico.

Hoje nos EUA, o nível de desigualdade social  é igual ao de antes da Grande Depressão dos anos 30.

Quanto mais pobre você fica, mais chances tem de trabalhar ganhando pouco, o que é crucial para manter o sistema. Mas é preciso uma ideologia para sustentar esse sistema.

A maioria de nós nasce com empatia, mas a opressão precisa destruir toda a nossa capacidade de ter empatia pelos outros,  senão todos nós estaríamos loucamente enfurecidos sabendo que existem pessoas oprimidas.

Mas como você garante que aqueles que não passam fome, aqueles que consomem o que o mundo tem para oferecer, não saiam por aí marchando reclamando que o mundo não é justo?

Você cria uma ideologia para justificar a desigualdade.

Essa é a chave.

Você não pode ter uma realidade material desigual que limita o acesso da maioria a riqueza sem uma ideologia que legitime essa desigualdade.

“A classe dominante domina como pensadores, como produtores de ideias, regulam a produção e a distribuição das ideias do seu tempo, portanto, suas ideias são as ideias dominantes da época.”– Karl Marx, A Ideologia Alemã

Notem que Marx não diz que “a classe dominante são indivíduos pensando individualmente”, ele entendia que o grupo  dominante agia como classe para se manter no poder.

Somos nós, os oprimidos, que devemos vagar por aí individualmente sem saber para onde ir.

E como esse 1% da população controla o que todos  nós pensamos?

Quando você faz parte do 1% que controla a economia mundial, você não deixa as coisas acontecerem por acaso,  você instaura um sistema que garanta a reprodução do seu poder. É assim que essas ideias se reproduzem.

O primeiro passo é ser dono da mídia. Isso é fundamental. Você usa o seu controle sobre a mídia para silenciar qualquer discurso alternativo que questione o direito da elite de se manter no poder.

Depois você cria institutos que fabriquem pesquisas e dados econômicos para interagir com a mídia, já que a maioria dos jornalista não entende nada de economia e são completamente dependentes desses institutos.

Assim você cria uma hegemonia, uma maneira de pensar dominante que controla a mente da maioria das pessoas.

O segundo passo é controlar a educação.

“Para reproduzir as relações sociais de produção, o sistema educacional precisa ensinar as pessoas a serem subordinadas e deixá-las suficientemente fragmentados em consciência para serem capazes de se opor a união e focarem somente em formar suas próprias existências materiais” – Bowles e Gintis, 1976

É assim que nos tornamos apenas “indivíduos” e o feminismo se torna individualista, destruindo a possibilidade das mulheres se entenderem como uma classe com interesses em comum.

Vamos analisar como funciona esse sistema educacional?

Antes o pessoal era político, hoje o pessoal é pessoal

Primeiramente você cria um ambiente extremamente entediante.

Sinceramente, quantos de vocês estavam entediados à morte na época do colégio?

Vocês acham que eles simplesmente esqueceram que tinham que nos ensinar as coisas? Não.

Esse sistema serve para nos treinar para o mercado de trabalho, pois a maioria dos trabalhos capitalistas são uma merda. Eles requerem uma alta tolerância ao tédio.

Você treina os indivíduos da classe trabalhadora para aguentar o tédio no colégio para que quando eles finalmente cheguem ao mercado de trabalho eles estejam acostumados a passar horas olhando para o  relógio esperando que o tempo passe.

O terceiro passo é marginalizar os radicais, e se esses radicais tiverem boas ideias, você as reformula e as vende numa versão mais acessível para esvaziar seu significado. 

A nova hegemonia é o neo-liberalismo pós-moderno

As vezes o pós-modernismo traz possibilidades interessantes, algumas ideias de Foucault sobre como o poder funciona se infiltrando no individuo poderiam  ser usadas pelas radicais por exemplo. Mas quando você aplica essas ideias numa realidade neo-liberal acaba criando uma ideologia centrada no individuo.

O ponto central  do neo-liberalismo é que existe um individuo e esse individuo tem “livre escolha”.

Estou farta de ouvir as pessoas falarem em “escolhas”.

É uma ilusão criada para nos dar a impressão de que temos liberdade dentro de uma rígida estrutura social.

O “indivíduo” é um ser racional, calculista, pragmático e que prioriza seu próprio bem estar.

Ou seja, o individuo não pode ser criticado pois ele sabe muito bem o que é melhor pra ele.

Ninguém pode se posicionar politicamente contra ele pois isso se torna um “julgamento”.

“Quem é você para criticar? “Tudo é relativo!” “Você está me julgando?” “Quem é você para me julgar?” Diz o indivíduo.

A ideia do neo-liberalismo é que somos todos seres empoderados com liberdade de escolha, portanto se alguém resolve criticar essas “escolhas”, DEUSA NOS ACUDA NÃO PODE, por que política não é mais importante.

A ideologia neo-liberal está em todo lugar, nas revistas, na tv, no cinema, na internet, etc.

Essa hegemonia está tão normalizada que ficou invisível.

Essa  é a maneira mais eficaz de controlar as pessoas, você torna a ideologia invisível a ponto de parecer natural. 

Na ideologia neo-liberal não existe desigualdade estrutural nem sistemas de opressão.

Não existem grupos oprimidos e opressores com interesses coletivos, apenas vários indivíduos fazendo várias escolhas individuais e se empoderando individualmente.

O neo-liberalismo destruiu o feminismo, e foi assim que chegamos nessa ideia de que feminismo “é o que cada pessoa faz individualmente”.

Feminismo De Terceira Onda

O problema não é a nova geração, é a nova ideologia.

Não quero dizer que a terceira onda foi toda ruim. O conceito da interseccionalidade é ótimo.

O feminismo de terceira onda que eu critico é o que está normalizado pela mídia.

Antes o pessoal era político, hoje o pessoal é pessoal

Para vocês terem uma ideia do que eu estou falando, esses dias perguntei para um grupo de alunas quantas delas se identificavam como feministas e uma delas respondeu:

“Feminismo não é quando você transa com um monte de homens? Eu não me sinto a vontade para fazer isso”

Essa é a ideia de feminismo que está espalhada por aí hoje em dia.

Mas voltando a frase do inicio do texto, “feminismo é algo individual para cada feminista”.

Vocês conseguem perceber o quanto isso é ridículo?

Vocês conseguem imaginar o Movimento Dos Trabalhadores dizendo “O movimento dos trabalhadores é algo individual para cada trabalhador”?

Vocês conseguem imaginar um sindicalista dizendo “Vocês se sentem explorados ganhando apenas um salário mínimo? Eu não, para mim está ótimo, sou uma pessoa empoderada”?

Sistemas de opressão são flexíveis o suficiente para absorver alguns membros do grupo subordinado, na verdade, os sistemas se fortalecem criando uma ilusão de igualdade provocada por essas exceções.

O feminismo de terceira onda acontece quando você cria uma teoria social baseada nos membros da elite da classe oprimida.

“Os homens fazem sua própria história, mas eles não fazem como bem entendem; não a fazem sob circunstâncias escolhidas por eles mesmos, mas sob circunstâncias diretamente encontradas, dadas e transmitidas pelo passado.” – Karl Marx

Ou seja, nós nascemos numa cultura onde existem dinâmicas e sistemas de opressão que não permitem que você vague por aí escolhendo o que é melhor para você.

Se você for um homem, rico e branco talvez, mas o resto de nós vive num mundo diferente.

As mulheres são 66% da força de trabalho, produzem 50% dos alimentos, mas possuem apenas 10% da riqueza e 1% dos imóveis.

O feminismo deveria ser para as mulheres que lutam para se sustentar, sustentar seus filhos, sobreviver, e não para o empoderamento individual da classe média.

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