Quando a até então, supervisora de uma companhia aérea chegou ao trabalho ela achou que seria mais um dia corrido na rotina movimentada do Aeroporto de Salvador, principalmente na época de alta estação, já que é no verão que os turistas lotam ainda mais a cidade. Maquiagem, ok. Farda, impecável. Hora de bater o ponto e ir para o balcão. Mas, antes de se dirigir para o posto de trabalho, Cleide Andrade foi chamada na sala do chefe que comunicou seu desligamento da empresa onde trabalhou por 12 anos.

Muita gente foi vítima do ‘boom’ das demissões em massa, sobretudo, em 2016, quando a Bahia foi o estado com maior taxa de desemprego do país, chegando ao índice de 36,2% de desempregados no 4º trimestre. E Cleide que ganhava um salário de R$ 3 mil virou parte desta estatística: “Tinha dois filhos, saí no auge dos cortes e o mercado estava muito ruim. Tinha uma estabilidade financeira, meu marido trabalhava, mas eu era a principal provedora da família. Precisava de uma fonte de renda rápida”, conta.

Cleide não pensou duas vezes em pegar R$ 600 do seguro desemprego e ir ao supermercado comprar o material para fazer churrasquinho – com direito à farofa, salada e pão de alho como acompanhamento – e ir trabalhar como ambulante na porta do campus da Unifacs, na Avenida Tancredo Neves. Não deu nem tempo de sofrer a perda do emprego porque as contas não paravam de chegar. “Via minha necessidade chegar e a conta não fechava. As poucas oportunidades de emprego que surgiam, malmente queriam pagar um salário mínimo. E aí eu fui para a batalha decidida a ganhar mais que isso em casa”.

Nas férias da faculdade, Cleide ia trabalhar nas festas populares para garantir o sustento. Ela experimentou a adrenalina de correr do rapa para não perder a mercadoria, deu um ‘pau danado’ na cozinha temperando carne madrugada afora e lutou para voltar pra casa sem nenhuma sobra. Mas, o sucesso do negócio mesmo tinha um toque de hortaliças desidratadas, casquinha crocante e um recheio na medida: o pão de alho. De acompanhamento, o pão tornou Cleide rainha e multiplicou aqueles R$ 600 que gastou na cara e na coragem na primeira leva de espetinhos em um negócio, que só no último ano faturou R$ 62 mil.

“A vida é dura para quem é mole. Minha mãe até pediu perdão a Deus quando disse que eu perder o emprego foi a melhor coisa que tinha acontecido na minha vida, porque eu já estava em um ponto de entrar no remédio controlado. Meu pão é tradicional, caseiro, que até criança que come gosta. Acertei na mistura”.

Era uma vez um cardápio

Rainha do Pão de Alho começou a produção com 25 pães, lá na primeira barraquinha junto com o churrasquinho. Hoje, são fabricados mensalmente, 8 mil pães. “E aí o negócio começou a dar certo. Tive que ter a minha marca. Não foi barato, mas eu sou ousada”, lembra. Cleide chegou a realeza a base de muita correria, alho e fermento. Ah, e com um bom papo também:
“Fui um dia almoçar no Rei do Pirão aqui na Boca do Rio e aí vi que no cardápio não tinha nenhuma entrada. Aí, na mesma hora e na ‘cara de pau’, mandei uma mensagem para o proprietário pelo Instagram oferecendo meu pão como entrada que estava faltando”.

O primeiro pedido foi de 30 pães, que se esgotaram em menos de 2h. Na semana seguinte, 100 unidades. Atualmente, A Rainha do Pão de Alho fornece 6 mil pães para a rede Rei do Pirão, atendendo as cinco unidades instaladas em Salvador, Feira de Santana e Região Metropolitana. “Eu fui seguindo junto com ele e ganhando também novos clientes como a Bão Petiscaria, Costela Baiana, o Beach Stop, assim como em cidades do interior. A gente trabalha ainda com kits para o consumidor direto”, afirma.

De microempreendedor individual (MEI), o negócio deve passar por expansão antes do final do primeiro semestre e mudar a categoria para pequena empresa. “A guinada foi quando eu bati na porta desse restaurante e percebi que o nicho do meu negócio é distribuição. A gente tem que estar atento a tudo. Só descobri isso porque tive a curiosidade de olhar um cardápio”, completa a rainha.

O SEGREDO DO PÃO DE ALHO

Não tenha vergonha de dar duro e de arriscar Mas busque um diferencial além do churrasquinho. “Fiz muita pesquisa antes e vi que tinha que vender algo além do churrasquinho. Salada e farofa todo mundo tinha. Aí veio a ideia do pão de alho”.

No ponto A pasta, o tempero, tudo tem que estar no ponto certo. Assim como a ideia e a estratégia do negócio. “Ficava que nem uma louca na rua procurando o ponto certo para vender meu churrasquinho. Isso era determinante para que eu conseguisse ganhar dinheiro ”.

E por falar em estratégia… Construa a sua marca. “Tem que se destacar, ter um nome, ser reconhecido pelo o que você vende e foi assim que eu me tornei a Rainha do Pão de Alho”, diz.

‘Cara de pau’ (a dica é essa mesmo) Chegue junto, leve seu produto até o cliente. Ofereça uma amostra, conquiste-o. “Bati na porta e disse a ele que faltava meu pão de alho no cardápio e assim nasceu uma parceria”.

Parceiros Tem que ter boa conversa e saber ouvir. “é ser parceiro e não só vender. Assim todo mundo cresce junto. Fazer uma parceria de verdade, gerar vínculo”.

  • Receita

Ingredientes alho, manteiga ou margarina, maionese, orégano, salsa e sal a gosto.
Modo de preparo Misture tudo até que se tenha uma consistência de pasta.

Ademir Fábio Quinot Ströher - ( Duda Renovatio )
Pai da Sophie e do Gael Cursou Análise e Desenvolvimento de Sistemas (UDESC) e Filosofia (UFSC), juntando as duas paixões que são a tecnologia e o livre pensar. Idealizador e criador do Portal Pensador Anônimo, o qual foi projeto de TCC (Filosofia da informação) do curso de Filosofia, colocado em prática as teses do Filósofo Francês, Pierre Lévy,( Inteligência coletiva; Cibercultura; Ciberdemocracia). Que a força esteja com vocês!