Está sendo um dos assuntos mais debatidos nas redes sociais e programas de debate esportivo a agressão sofrida por dois torcedores do Grêmio no último Grenal. Mãe e filho sofreram uma abordagem extremamente intempestiva por uma torcedora do Internacional, ao fim da partida. Tudo isto aconteceu após esta mãe receber a camisa do jogador Luan do Grêmio no encerramento do jogo. Ela acabou levantando a camisa em direção à torcida de seu time, o que foi visto como uma provocação por parte de uma torcedora do Internacional, que simplesmente arrancou de forma violenta a camisa das suas mãos em frente ao filho da torcedora gremista, que assistiu a tudo em prantos, chocado com toda a situação lamentável. A cena por si só é dantesca e demonstra toda uma irracionalidade e fanatismo em nome de uma agremiação esportiva. É surreal a bem da verdade, mas é praxe em nosso país a retórica de que no futebol tudo é permitido, onde o que é condenável e passível de punição em nossa sociedade, quando é relacionado à esfera futebolística, se torna “tolerável”. Indo para além das questões clubísticas, precisamos raciocinar e dar a real importância de que o comportamento dos torcedores brasileiros é reflexo puro da sociedade violenta, preconceituosa e intolerante que vivemos.

Intolerância e preconceito existem e é quase tão corriqueiro nos estádios quanto queijo em uma pizza. Casos de racismo dentro das canchas brasileiras é que não falta. Os cânticos de “macaco” para se referir a Torcida do Internacional vindo da torcida rival gremista é histórico e remete ao contexto de segregação racial que se é negado por parte da sociedade brasileira, o famoso racismo “velado”, onde boa parte dos xingamentos e falas racistas são consideradas como brincadeiras e anedotas. Isto tem diminuído após a polemica mostrada em rede Nacional do racismo no caso do ex-goleiro do Santos Aranha, durante uma partida contra o Grêmio em 2014. Para não dizer que estou sendo imparcial, houve também xingamentos racistas direcionados por torcedores do internacional ao Jogador Fabrício, do próprio colorado, por ele estar com um desempenho em campo ruim, em 2015. Também houve o caso do ex árbitro Marcio Chagas, negro, que após apitar uma partida pelo campeonato gaúcho, encontrou bananas enfiadas no escapamento de seu carro no estacionamento no estádio da cidade de Bento Gonçalves, em 2014.

A principio poderia se fazer um recorte de que o racismo aparenta ser um problema restrito ao âmbito do futebol gaúcho, mas quem dera de que fosse apenas neste estado do país. Poderia citar mais casos do tipo por outras partes do Brasil, basta fazer uma procura no Google que casos semelhantes ocorrem em outras praças esportivas. Isto se espraia para dentro das instituições futebolísticas e pelas funções hierárquicas dentro do futebol. São raros os casos de dirigentes e técnicos de futebol negros em nosso país, triste ironia, pois a maior parte da nossa população e dos jogadores de futebol são negros. Isto se deve a um estigma racial espúrio e nefasto, que caracterizou historicamente que o negro não poderia assumir funções que demandassem esforço intelectual (Curiosamente, o maior escritor brasileiro da História é Negro, Machado de Assis). De certa forma, podemos considerar isto uma espécie de racismo institucional velado por parte de clubes e federações do futebol brasileiro. Novamente é um retrato do que acontece também em nossa sociedade, onde posições de poder (juízes, políticos, comandantes de alta patente das forças armadas e policia, funcionários públicos em cargos de chefia) são minoritariamente assumidas por negros.

Outro ponto sintomático da barbárie de nosso futebol se refere ao machismo que permeia o meio futebolístico. As mulheres ainda lutam constantemente para se fazer e serem respeitadas dentro do ambiente do futebol. A presença feminina dentro dos estádios para acompanhar os jogos melhorou bastante nos últimos anos, mas estas ainda convivem com olhares atravessados a sua presença e com os clássicos comentários misóginos nas arquibancadas, extremamente ofensivos e inoportunos. A copa do mundo de futebol feminina de 2019 ajudou a quebrar paradigmas e preconceitos com o futebol feminino, mas ainda as coisas são difíceis para as mulheres exercerem profissões dentro do futebol e serem respeitadas por isso. Comentaristas mulheres que acompanham e cobrem os jogos também é apenas uma pequena parcela neste mercado de trabalho. Essa comparação se torna mais abissal quando nos deparamos na questão salarial. Jogadoras mulheres ganham infinitamente menos que jogadores homens, bastando ver que a melhor jogadora de futebol feminino da História, Marta (6 vezes eleita pela FIFA com premio bola de ouro) ganha 267 vezes menos que o jogador Neymar ( ultimamente mais presente nas páginas policias e de coluna social do que de esportes). Estes casos dentro do esporte bretão é o espelho elevado à enésima potencia do que ocorre em nossa sociedade: Mulheres sofrem com comentários sexistas diariamente e recebem 1/3 menos que homens quando ocupam a mesma função de trabalho, e no caso de uma mulher negra, 1/6 a menos que um homem branco.

Outra enfermidade social que se espalha pelo futebol como praga é a homofobia. Os cânticos cantados pelas torcidas geralmente são voltados com ofensas homofóbicas contra jogadores e torcidas adversárias, bem como contra os árbitros quando marcam algo contrário a seu time. A moda agora é ofender o goleiro adversário ao bater o tiro de meta, o chamando de “bicha”. Outro fator relevante é o próprio ambiente entre os jogadores, onde os mesmos afirmam que o vestiário de um time de futebol não aceitaria bem um companheiro assumidamente homossexual, o excluindo do grupo por ter uma opção sexual diferente da sua.  Essa violência simbólica destinada aos homossexuais no seio do futebol é mais um aspecto da sociedade que se concretiza, pois vivemos em um Estado com altos índices de violência contra a população LGBT, sendo o Brasil o país onde mais se comete assassinatos contra Transexuais e Travestis.

Todos estes aspectos fazem parte da fervura de um caldeirão explosivo, que acaba derivando em viscerais casos de violência extrema, onde corrupção, negociatas, verdadeiras máfias, se instauraram no comando das torcidas organizadas, clubes e federações de futebol, sobretudo a CBF. As organizadas, que se formaram nos anos de 1970 e 1980 como forma de fazer belas festas nas arquibancadas e resistirem contra a repressão politica desta época, hoje acabaram sendo contaminadas por grupos criminosos que se utilizam de tráfico de drogas, brigas e extorsões para se manterem no controle das torcidas. Os clubes e seus dirigentes mantém relações nada republicanas e legais do ponto de vista da justiça, desviando verbas dos times, através da venda de jogadores, superfaturamento dos balancetes dos clubes e outras traquitanas fraudulentas utilizadas para enriquecimento ilícito a partir do patrimônio dos clubes aos quais são mandatários. Em relação a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) basta lembrarmos que temos os dois últimos presidentes sendo investigados pela Interpol e FBI, estando um deles preso nos Estados Unidos. Neste Interim, não é exagero afirmar que as relações dos dirigentes da CBF com corrupção e estelionato sejam tão indecorosas quanto à dos políticos brasileiros com o erário publico.

Este lado sombrio de nossa sociedade faz parte do futebol, e não há como dissociar toda a conjuntura dos problemas da sociedade e seus efeitos no futebol. Na maior parte das vezes o meio futebolístico acaba por aflorar e escancarar ainda mais todos os nossos problemas mal resolvidos enquanto ser humano habitando um país atormentado por uma série de divisões, disputas, violência e descalabros latentes. O caso ocorrido no último Grenal chega a ser de uma insanidade tal, que a agressora estava utilizando um cachecol escrito “Inter antifascista”, quando ela mesmo acaba por assumir uma postura fascistizante. Loucos tempos em que vivemos, como num conto escrito por Dias Gomes, onde o surreal se torna concreto, e o absurdo faz parte da realidade.