Você sabe a origem e a significação de Kryptônia, de Zé Ramalho?

Você sabe a origem e a significação de Kryptônia, de Zé Ramalho?

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  • O TÍTULO

O título “Kryptônia”, embora isso pareça muita surrealidade, deve fazer menção ao planeta de origem do Superman, Krypton. Seria um óbvio aportuguesamento do nome. Mas vocês, meus caros leitores, devem estar se perguntando: o que o Super-Homem tem em comum com a música?

Não é tão simples responder essa questão. Mas saibam que o Superman nasceu em Krypton e, antes que esse planeta explodisse, foi enviado à Terra por seu pai. Quando Krypton explodiu, algumas partes suas chegaram à Terra em forma de asteroide, que traziam consigo pedaços de kryptonita (mineral que tem o poder de enfraquecer o Superman).

Você sabe a origem e a significação de Kryptônia, de Zé Ramalho?

A relação da canção com os quadrinhos está no fato de haver, na teoria mencionada na música, um personagem que, tal qual a kryptonita, chegou à Terra por meio de um asteroide. Mas vamos deixar isso pra um pouco adiante.

  • ZÉ E OS QUADRINHOS

Zé Ramalho, para quem não sabe, é fã incontestável de quadrinhos.

Seguindo a teoria de que Kryptônia exerce relação com o quadrinho do Superman, esta não seria a primeira vez que ele teria introduzido o fantástico mundo das HQs em suas composições. Um ano antes do lançamento do disco que contava comKryptônia, Zé Ramalho lançou o LP Força Verde, causando muita polêmica com a faixa-título, praticamente idêntica a um poema de William Butler Yeats. O poema havia sido “usado como legenda para os quadrinhos de uma história no n.º 1 da revista O Incrível Huck, publicada no Brasil em 1972″. O suposto plágio foi, inclusive, relatado numa entrevista da revista Veja.

  • A INTERPRETAÇÃO

Mas, acreditem, tudo que foi descrito acima ainda não é nada perto do real sentido que Zé quis nos passar. Creiam, no entanto, também que vale a pena ler até o fim, apesar do enorme texto.

Eu falava de um personagem que havia chegado à Terra por meio de um asteroide. E tenho pra mim que esse personagem seja o que possamos chamar de Diabo.

Alguns de vocês devem estar confusos. “Espera aí, Thamirys, de onde você tira essas coisas esquisitas?”, “Quer dizer que o Zé Ramalho é satanista?”, “Ele escreveu uma música pro Diabo? Deve ser por isso faz tanto sucesso!…”. Vejam o que me levou a considerar essa hipótese.

A primeira coisa é saber que o Zé Ramalho não escreveu uma música para o Diabo, mas sim sobre ele. Portanto não é satanista (ao menos, não por isso). A segunda coisa é que eu disse que a música falava de uma nova teoria da criação da Terra. E é aí que o Diabo entra.

Nós, por questões religiosas e culturais, temos mania de criticar o Diabo, de ofendê-lo, de considerá-lo ruim e do mal. Isso é muito natural. É então que o Diabo, no seu papel de um dos eu líricos, nos diz que isso não é certo. Ele diz:

Não admito que me fale assim.
Eu sou o seu décimo-sexto pai,
sou primogênito do teu avô, primeiro curandeiro,
alcoviteiro das mulheres que corriam sob teu nariz.
 

Ele nos diz que não podemos falar mal dele e nos esclarece os motivos. Ao dizer que é o nosso décimo-sexto pai e, além disso, o primogênito do nosso avô, nos dá a entender que é um parente distante. Nos dá a entender também que é ele a origem de todos nós, visto que não define a quem fala, podendo ser o interlocutor qualquer uma das pessoas que o criticam.

Ser o primeiro curandeiro está aí para enfatizar a fato do eu lírico ser o Diabo, visto que é um ato quase sempre associado ao ato de magia negra. Seria ele o primeiro a praticar tais atos. É ele também aquele que intermedeia a discórdia, o alcoviteiro.

A pergunta cabível neste momento é por que o Diabo é a origem de tudo e todos.

Me deves respeito, pelo menos dinheiro.
Esse o cometa fulgurante que espatifou.
Um asteroide pequeno que todos chamam de Terra

Pronto, responde-se a pergunta. Ao completar sua fala anterior, de que merece respeito, o Diabo diz o porquê de merecer. Ele é aquele cometa que espatifou e deu origem à Terra.

Vemos nessa parte da música uma ligação à história do Superman. A kryptonita fazia mal aos habitantes de Krypton. O Diabo também era um mal para os céus, onde estava, se levado em consideração que era um anjo. Ambos vieram à Terra por meio de um asteroide.

Mas, aqui, vocês podem ter a mesma dúvida que o Renato – pra quem não sabe, outro autor do blog – teve quando o contei da minha interpretação da música. Desde quando o Diabo veio à Terra por meio de um asteroide?

Seguindo na linha de pensamento de que o Diabo era um anjo, por ser o pai da mentira e tentar igualar-se ou sobressair-se a Deus, caiu dos céus, que ficaria fora da Terra. Sendo assim, sua massa adquire velocidade, transforma-se em um asteroide que dá origem ao nosso planeta.

Prestem atenção que a música não só designa o Diabo como o agente formador da Terra, mas também como ela própria.

De Kryptônia desce teu olhar
e quatro elos prendem tua mão.
Cala-te, boca… companheiro, vá embora, que má-criação!
De outro jeito não se dissimularia a suma criação
E foi o silêncio que habitou-se no meio 
Ele é o cometa fulgurante que espatifou
um asteroide pequeno que todos chamam de Terra

Se antes quem “cantava” era o Diabo, agora a voz é de Deus. O Diabo transforma-se em unicamente interlocutor. O interessante nessa mudança de eu lírico é que muda também o modo como Zé canta a música.

Kryptônia é o céu. É de lá que vem o Diabo. Deus o descreve, assim como descreve o momento em que foi expulso de seu reino e o momento em que ele espatifou, formando a Terra. Interessante como, nesse contexto, “má-criação” toma o sentido de, realmente, uma criação ruim.É esta a teoria de Zé.

E o que mais me encanta é essa junção do criacionismo com o evolucionismo, bem como a crítica aos hipócritas que criticam o Diabo quando a culpa é unicamente sua.

Interpretação Pessoal


Pensador Anônimo

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