A Universidade como um Balcão de Negócios

A Universidade como um Balcão de Negócios

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O momento atual em que reformas na e sobre a educação estão sendo feitas e/ou discutidas, leva-nos a problematizar o real sentido da palavra educação e de como ela tem sido construída ao longo dos anos no país, como também, de que forma queremos que ela seja pensada e aplicada.

Todos nós sabemos que a educação é fundamental para a formação do indivíduo, seja tecnicamente, para que se torne apto a executar determinadas funções dentro de certas áreas do conhecimento; seja criticamente, a fim de que possua subsídios para participar da vida social, como um elemento questionador e capaz de propor soluções.

A Universidade como um Balcão de Negócios

Dessa maneira, é evidente que a educação é algo primordial na vida dos sujeitos, individual e socialmente. Fundamental para o desenvolvimento de qualquer sociedade em aspectos técnicos e sociais, haja vista a importância das duas, muito embora uma seja priorizada sistematicamente sobre a outra.

Quando essa problemática é discutida, muitas variáveis surgem, posto a complexidade da questão. Uma dessas variáveis se direciona ao papel das Universidades na construção de uma educação mais crítica, que possa sim formar os indivíduos tecnicamente, mas que seja também um elemento de transformação social, uma vez que tendo a sociedade problemas, é imprescindível que soluções também sejam pensadas. Aliás, a Academia, via de regra, deveria ser o lugar próprio do pensar, do conhecimento, da busca pela sabedoria.

No entanto, o que se percebe é que a sua preocupação com questões burocráticas é muito maior do que com a construção do conhecimento, tornando, consequentemente, o pensamento muito mais engessado e reprodutivo do que livre e criativo. É óbvio que alguns parâmetros precisam ser tomados, mas há um excesso burocrático em um lugar que foi idealizado para que novas ideias surjam ou, no mínimo, releituras mais críticas e autorais acerca de certos saberes postos sejam realizadas.

Isso me leva a pensar, com o perdão da palavra, que isso se deve a um outro fator: o mercado. Antes de prosseguir, é bom que se coloque que as relações dentro do capitalismo vão muito além de qualquer maniqueísmo, portanto, ao citar o mercado, isso não significa que ele seja o causador único de todos os problemas. Sendo assim, o fato é que a educação e o mercado mais do que interligados (algo que seria natural, porque o fator técnico na educação é pertinente e também necessário), estão em uma relação de subordinação.

Ou seja, a educação está preocupada quase que exclusivamente em “produzir” bons instrumentos, digo profissionais, para atender às demandas do mercado. E, desse modo, a função crítica da educação é perdida, o que tem como consequência direta uma certa estagnação social, no sentido de ter uma sociedade cada vez menos crítica e articulada, e mais subserviente e acomodada.

Em outras palavras, podemos dizer que a Universidade se tornou ou entreposto comercial entre o Estado e sistema empresarial, o que, diga-se de passagem, no Brasil, são coisas extremamente imbricadas. E isso pode ser explicado também pelo sucateamento que as instituições passam, haja vista a falta de estrutura e investimento, sobretudo, em atividades que vão além da sala de aula propriamente dita, como projetos de pesquisa e extensão, os quais são fundamentais para que novas ideias e projetos se materializem, construindo na práxis elementos capazes de promover melhorias no campo social.

Não havendo, entretanto, esse fomento pelo Estado, a Academia acaba por formar profissionais muito hábeis tecnicamente, mas deficitários socialmente. E isso vai além, porque há ainda o caso daqueles que, apesar das dificuldades, conseguem desenvolver um conhecimento mais crítico, mas o executam na manutenção dessa estrutura social, já que o fato do Estado não possuir interesse em contar com essas mentes para desconstruir a ordem posta (algo tristemente óbvio), não significa que o mercado não esteja ansioso para contar com elas a seu favor.

Assim sendo, o que se constata é que a Universidade se tornou um balcão de negócios. Todavia, como disse, o problema não está necessariamente no mercado, no Estado ou na Universidade em si, como se estes fossem entes abstratos sem nenhuma influência e relação social. A questão é sistémica, e as instituições supracitadas fazem parte desse sistema, de tal maneira que enquanto ele perdurar, a educação dentro da Academia continuará do mesmo modo, o que também não é uma “qualidade” apenas dela, mas também de toda a educação básica, o que só torna ainda mais claro como o problema é sistémico e está interligado em vários níveis.

Está na hora de pensar em que educação queremos, porque o relógio corre, os problemas se acumulam e como disse Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.


Por Erick Morais


Pensador Anônimo

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