Não quero viver num mundo onde a fé tem preço

Não quero viver num mundo onde a fé tem preço

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Entrei na Igreja Matriz para ver a arte, linda por sinal. Mas antes, fui ter com nossa senhora e como sempre caminhei pela igreja encantada com a paz em seu vazio e com seus vitrais.

Desde que li Trem Noturno Para Lisboa, sempre quando entro em uma igreja, faço questão de entrar em todas por onde passo – uma homenagem a minha mãe – repito mentalmente um parágrafo de uma passagem do livro, que de tanto reler, já sei décor.

(…) “Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho de seus vitrais, de sua calma gelada, de seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. Preciso de tudo isso”.

Não quero viver num mundo onde a fé tem preço

Nunca gostei de missas e, quando pequena, depois de muita negociação eu entrei em acordo com minha mãe, eu faria a primeira comunhão e depois ficaria livre para decidir se queria ser católica ou qualquer outra coisa que passasse por minha cabeça. O acordo incluía não ir mais a missa se eu não quisesse, aos 11 anos de idade, eu poderia decidir qual futuro religioso eu queria para mim e desde a minha primeira comunhão, nunca mais assisti a uma missa.

Foi na Igreja Matriz de Santo Antônio que fiz a primeira comunhão. Igreja fica pertinho de casa e é caminho para tudo, por estas e outras, quando vazia sempre a visito, revejo todos os vitrais e revivo momentos. Sento em um dos bancos, ajoelho e rezo, quantas e quantas vezes chorei de emoção, sempre em paz. Nestes momentos, nessa imensa e acolhedora igreja vazia, entendo que ela fez parte da minha história, de alguma forma contribuiu para me formar. Recordo-me daquela menininha andando de lá pra cá, correndo, levando broncas do padre, do padre bravo, tento me lembrar dos coroinhas, das freiras, da professora de catecismo, das crianças, das missas.

Sinto na alma e no coração todas aquelas pessoas que dividiram comigo aqueles momentos, como se elas estivessem ali, em cada tijolo, em cada vitral, nos bancos, em todos lugares. É minha história, é de onde venho e, é como fui forjada. Sentir isso tudo sempre acalma minha alma.

Cada um tem suas escolhas, embora eu possa não concordar com elas, o mínimo que posso fazer é respeitá-las… E sentada sozinha no banco da igreja eu celebro as minhas escolhas, com gratidão.

Mas ao longo do tempo compreendi que a Igreja Matriz não pertence ao padre, não pertence ao bispo, nem a mim, nem a ninguém. Ela é um ambiente que deve congregar e acolher a todos, pobres, ricos, brancos, negros, índios, adultos, crianças, a todos sem distinção de gênero, idade, cor, orientação sexual, status social. Jesus nos ensinou através de seu exemplo e amor. Ele era pobre e, pobre viveu e morreu. Falava aos puros de coração, era seguido por ignorantes e pobres.

Refletindo sobre a vida e as palavras de Jesus, a pergunta é inevitável, qual terá sido a razão para que parcela significativa das religiões abrigasse e concedesse poder a aqueles que são incapazes sequer de sentir amor, compaixão e tolerância pelo outro em suas diferenças? Pessoas de alma bem pequena que vivem e se apegam ao poder, a soberba, a intolerância, ao preconceito e se autodenominam ministros de Deus!

É inadmissível que pessoas comuns, padres, bispos, arcebispos se autoproclamem arautos de Deus e exijam ocupar cargos em uma igreja como se ela fosse uma instituição particular. Mas é ainda mais inadmissível que as maiores autoridades eclesiásticas compactuem ou façam parte deste estado de coisas!

Jesus em toda sua história pregou o amor, creio que me lembro de uma única passagem na bíblia onde Jesus perdeu a paciência e saiu na mão, foi quando ele expulsou os vendilhões do templo. Quando ele acusou os sacerdotes de usar a Igreja e fazer negócios particulares e obscuros em nome de Deus! Jesus nesta passagem selou seu destino. Pois despertou a ira dos sacerdotes corruptos que ajudaram a insuflar o povo contra Ele. Temiam perder as benesses que conseguiram se aliando aos Romanos e usando a Igreja em benéfico próprio.

Representantes da Santa igreja católica, principalmente alguns de seus padres, bispos, arcebispos costumam viver de uma forma, que eu diria, oposta aos ensinamentos de Jesus, que se baseava no voto de pobreza, amor e a compaixão, entre tantos outros ensinamentos pregados. Por este motivo sempre questionei, por que os padres moram em casas imensas? Por que usam o carro do ano? Por que amam frequentar a casa dos ricos? Entre tantos por quês. Coisas que o papa Francisco, um Jesuíta, parece tentar mudar. O Papa Francisco dá e consequentemente ensina pelo exemplo, coisas que não estamos muito habitados hoje em dia. Se é através do exemplo que se educa creio que há muitos padres, bispos e arcebispos por este Brasil afora que deveriam estar um tanto quanto constrangidos e envergonhados com certos “luxos” e estilo de vida.

E a coisa mais natural desse mundo, vindo de uma igreja que mantém núcleos que se baseiam em mesquinhez e poder, é “formar” e abrigar “devotos” tão mesquinhos e ávidos pelo poder quanto seus “líderes”.

Penso, se Jesus fosse vivo o que diria sobre tudo isso, seres humanos que frequentam a casa de Deus e são incapazes de amar o próximo, e praticam com toda a força algo tão abjeto e condenável como o racismo, mesquinhez e a soberba, por exemplo.

O que Jesus diria dos padres racistas? Dos padres preconceituosos? Da cúpula da igreja aderida a bens materiais e ao poder? Dos padres pedófilos? Das igrejas banhadas em ouro? Das Igrejas comércio?

Certamente expulsaria os vendilhões desse templo!!!

Tudo isso me vem à mente quando esto na Matriz, quando estou com nossa senhora ou em outros pontos da Igreja, e agora no presépio, pois me incomoda profundamente encontrar em todos estes lugares uma caixa para que os fiéis depositem uma contribuição. Tão acostumados que estão com estas tais caixas, creio que os fiéis não se dão conta que elas não pertencem a este lugar, é excruciante ver nossa senhora dividir seu espaço com uma caixa de doações. Não basta o dízimo, não basta já tanto dinheiro, senhores padre, bispos, arcebispos? Pra que tanto dinheiro, Vaticano? Pra que manter estas caixas de doação no coração da Igreja, é como macular um lugar de congregação e união.

Minha mãe argumenta, “a igreja precisa de dinheiro, filha, para as flores, para a limpeza, para sua manutenção”, “mas mãe, o dízimo já não é mais do que suficiente”?

A igreja deveria viver conforme as suas posses, amo todos aqueles vitrais, mas a igreja seria tão linda quanto, se fosse um pequeno casebre que acolhesse a todos, a todas as histórias, todas as almas, sem distinção.

Não mãe, a igreja não precisa de dinheiro, a igreja precisa de tolerância, compaixão, amor e abnegação, como nos ensinou São Francisco de Assis!


Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre em Educação e Doutora em Educação Ambiental. Atualmente trabalha como pesquisadora, Pós-Doutoranda, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: “Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação – REDELITORAL NORTE SP”


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