Moonlight e a caricatura do macho

Moonlight e a caricatura do macho

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Por incrível que pareça, a masculinidade é um tabu. Poucos homens estão abertos a debater o próprio conceito de “ser homem“. Desde pequenos nós somos incentivados a sermos o contrário de tudo aquilo que é considerado de mulher, e esse “coisa de mulher” é sempre posto de maneira depreciativa. Chorar é coisa de menina, então não importa se você tem apenas 5 anos e acabou de cair da bicicleta, a única forma de lidar com isso é engolindo o choro.

Moonlight e a caricatura do macho

É o extremo oposto das mulheres, que desde sempre, são “treinadas” para serem frágeis. A ideia de que homens precisam ser mais homens o tempo todo, cria atitudes tóxicas que apenas os anos de amadurecimento são capazes de expor. Um exemplo clássico são as dezenas de mortes envolvendo excessos de consumo de álcool ou drogas. De overdose a acidentes, e até mesmo brigas que terminam de maneira trágica graças a bebedeira. Isso só acontece porque você precisa beber mais, você é homem, tem que encher a cara. Tem que usar mais droga. Tem que aguentar mais porrada e não pode levar desaforo pra casa.

Moonlight e a caricatura do machoDa pra escrever um texto inteiro citando exemplos desse tipo de comportamento e suas consequências, mas indico o documentário The Mask You Live (disponível na Netflix) que fala justamente desse tema. Agora perto dos 30, pai de uma filha, e não precisando me provar pra absolutamente ninguém, só agora olho pra trás e consigo enxergar a quantidade de sofrimento que me causei por tentar “ser mais homem“.

Ser homem. O que te define como tal? Moonlight não deixa de ser um filme que toca nesse assunto. Simples e com um tema poderoso. Acompanhamos a jornada de um garoto negro, gay e pobre. Não se trata de caricaturas, mas sim de como alguém que já carrega consigo problemas internos (a dificuldade de se aceitar, de se encontrar no mundo), também precisa lidar com os externos (o racismo, a cobrança pela masculinidade, a pobreza).

No ano do chamado “Oscar Negro“, Moonlight desponta como o grande favorito a levar algumas estatuetas (isso se a afetação por La La Land deixar). Grande na sua mensagem, mas pequeno na sua produção: o filme custou pouco mais de 5 milhões de dólares, e encontra sua força nas emoções mais humanas possíveis. A criança, o adolescente e o adulto, todos os momentos onde o questionamento sobre nossa real natureza ainda pulsa a todo instante.

Moonlight e a caricatura do machoChiron nada em um mar de incertezas, e Moonlight nos carrega para dentro dessa história. O garoto além de não contar com uma figura paterna, ainda precisa lidar com a mãe viciada. Sem uma estrutura familiar onde se agarrar, sua vida é um verdadeiro inferno, afinal, seus colegas já conseguem entender que ele não é como eles, e pra uma criança, esse impedimento de “ser normal” se torna uma cicatriz incurável.

Da infância para juventude, Chiron passa a se entender melhor, porém, entende ainda mais o quão empurrado para longe ele será. Na época onde desejos e obrigações se confunde (é agora que o menino precisa se provar o macho), o primeiro contato sexual é uma das experiências mais intensas de uma vida. É ali que o descobrimento do próprio corpo começa a aflorar.

Mas sem diálogos, sem apoio, sem uma base sólida de família ou amigos, o agora adulto Chiron internalizou tudo. O amor, a paixão e consequentemente, suas próprias verdades. A essência do eu é apagada, e da lugar a caricatura. O personagem é quem assume, mesmo que através de seu olhar, é possível enxergar sua verdadeira vontade.Moonlight e a caricatura do macho

Moonlight um dos filmes mais importantes do ano.


Por : Luide

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